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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Motorista de ônibus em Osasco: para onde vou?

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Por Paulo Talarico

Algumas semanas atrás, ao sair de casa pela manhã, corri para pegar o ônibus e iniciar o trajeto de duas horas rumo ao trabalho. A primeira parte do caminho costuma ser de cochilo, porém, ao entrar, vi o coletivo cheio, sem lugares na parte de trás. Enquanto ainda pensava no que fazer, fui surpreendido com uma pergunta do motorista:

― Vou para esquerda ou desço direto?

― Para a esquerda.

O motorista seguiu a instrução. O cobrador, ao ver minha boa vontade em responder, aproveitou.

― Ele é novo, fica aí na frente.

Como não tinham outros lugares, decidi ficar ali mesmo. Foi uma manhã de copiloto.

― Na próxima você vira à esquerda de novo e para naquele ponto onde estão aquelas pessoas.

E o ônibus foi em frente. Fiquei sentado apenas mais um ponto. Quando um senhor entrou, parou ao meu lado e me encarou com cara de “você está no meu lugar”. Foi impossível não me levantar. Resultado: fiquei em pé ao lado do motorista.

― Pior que hoje está nublado, não está dando para ver nada. Mas quando chegar na avenida eu sei o caminho.

Enquanto a avenida não chegava, indiquei mais algumas ruas e o ônibus encheu rápido.

A linha é uma das mais movimentadas, da zona sul de Osasco, cidade da Grande São Paulo. Ela faz o trajeto entre a região do Jardim Veloso e o centro da cidade.  Também é utilizada por quem trabalha em São Paulo, por passar por duas estações de trens da CPTM (Comandante Sampaio e Osasco).

Finalmente chegamos na tal avenida. Hora de comprovar se ele sabia para onde ir. Não sabia.

― Tem que entrar aqui, olha, isso vira, vira, vira, ufa ― foi por pouco.

Na minha cabeça, os motoristas assumiam uma linha após dirigir por elas algumas vezes, depois de gravar o caminho. Mas parece que não é bem assim. A passagem de R$ 3, que não garante integração com nenhuma outra linha da cidade, também não serve para treinar bem os condutores.

― Não. Hoje é a primeira vez que faço esta linha. Entrei na semana passada e trabalhei em outras quatro.

― Então, você não aprende o trajeto antes?

― Não, a gente aprende assim, trabalhando.

― Ali você tem que seguir em frente, viu?

Por conta da lotação, o ônibus que viria dez minutos depois o alcançou.

Enfim, chegamos ao meu ponto, já com o ônibus lotado e atrasado.

― Até mais motorista, boa sorte!

― Ah, pode descer aqui pela frente. Obrigado ― ele liberou a passagem.

Nada contra o novo motorista que estava fazendo sua parte e lutando para começar em um novo emprego,  mas as empresas de ônibus bem que poderiam cuidar para não colocá-los na fogueira nos primeiros dias.

 

Paulo Talarico, 22, é correspondente de Osasco.
@PauloTalarico
paulotalarico.mural@gmail.com

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