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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Peguei um táxi em dia de toque de recolher

Por Blog

Três semanas atrás, meia-noite e meia, desci no metrô Jabaquara, zona sul de São Paulo, a estação mais próxima da minha casa. Precisava chegar da forma que aparentasse ser a mais segura possível para minha mãe. Ela já tinha ligado seis vezes para me lembrar que a cidade estava em toque de recolher.Um ônibus me deixaria na avenida em 10 minutos, mais cinco subindo a ladeira, chegaria em 15 minutos. Mas, naquela noite, um táxi seria mais prudente.

Pegar táxi nunca foi legal para mim. Lembro quando fui a um ponto da Vila Olímpia e disse: “Oi, você está disponível?” Ele me olhou desconfiado e perguntou para onde iria. Senti que o fato de eu ser negra contribuiu, mas essa é outra história. Respondi: “Para a avenida Cupecê”. Silêncio. Em seguida, recebi a pergunta já esperada: “Em que altura?”.

Na verdade, avenida Cupecê é quase um eufemismo para dizer que se vai pro Jardim Miriam, um dos bairros do complexo periférico que compõe Cidade Ademar. Meu bairro. Enfim, ele não aceitou a corrida e parti para a segunda tentativa. Recebi um sim, acompanhado da tradicional fala: “Por favor, você pode adiantar o pagamento para eu não esperar muito tempo em frente da sua casa?”.

Mas era meia noite e meia de três semanas atrás, só tinha um taxista parado no metrô Jabaquara e minha mãe estava realmente preocupada com o toque de recolher. Ele precisava aceitar!

O início da conversa foi igual. Disse a rua em que morava e ele respondeu: “Moça, nessa rua eu só subo até a escola Habib (escola municipal Habib Carlos Kyrillos).” E eu respondi: “Que bom, moro pouco depois da escola”. E ele retrucou: “Mas eu só vou até a escola mesmo, moça”. Não questionei. Partimos.

E ele tinha uma conversa boa. Perguntou se eu não tinha ouvido falar que às 21h todos precisavam estar em casa. Contou que tinha sofrido uma tentativa de assalto nas redondezas e que não tinha sido atingido por obra de Deus. Desabafou. “Polícia? A polícia não quer proteger não, ela faz é parte dessa guerra e a gente que paga o pato”.

Passamos por carros da polícia enquadrando dois motoqueiros. Estávamos quase chegando. Ele continuou. “Soube que mataram uma pessoa aqui dias atrás. Aí, os bares que nunca fechavam a noite não ficam mais abertos. Percebeu? E olha que para não abrirem é por que a coisa tá feia mesmo.” Rimos.

Reparei. Os bares estão fechando mais cedo mesmo. Mas percebi também que os moradores continuam no ponto de ônibus do metrô Jabaquara à meia noite. As lotações Jardim Miriam, Refúgio Santa Terezinha, Cidade Júlia e afins não estão menos cheias. E o resto do trajeto ainda é feito a pé, olhando para os lados ou na companhia de alguém. Também faço isso. Táxi é só para acalmar a mãe em dia crítico.

Já na minha rua, perto da escola onde seria o limite do taxista, apontei minha casa. Ele concordou em me levar. Dei tchau. Entrei. Vi minha mãe. Já sabia tudo o que ela ia falar. Ouvi. “Esqueceu onde mora? Você mora no Jardim Miriam. Como que você sobe esse morro sozinha? Não assiste TV? As pessoas estão morrendo e você faz parte da linha de risco: pobre e negra.” Contei do táxi, mas não amenizou muito.

Nas últimas semanas a imprensa divulgou a morte de cinco pessoas da minha região. O taxista já havia me contado de uma. Depois ouvi falar das outras. Histórias de vidas desconhecidas que aumentam os números de uma guerra civil declarada. O Jardim Miriam faz parte dos noticiários. E eu faço parte do Jardim Miriam.

Semayat Oliveira, 23, é correspondente da Cidade Ademar.
@Semayat
semayat.mural@gmail.com

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