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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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O golpe de Nossa Senhora

Por Blog

José* sempre cuidou do seu dinheiro. Trabalhou muitos anos como eletricista e encanador, construiu casas e vive hoje com o dinheiro do aluguel de suas residências. Morador do Jardim Veloso, na zona sul de Osasco, Grande São Paulo, sempre esteve atento com suas finanças e era considerado, inclusive, um tanto pão duro. No entanto, aos 72 anos, andava meio cansado e cabisbaixo. Há algumas semanas, andando por uma feira, ele foi abordado por um rapaz.

― Seu José, tudo bem?

José não se lembrava do garoto, mas imaginou ser alguém conhecido.

― Tudo sim.
― Está certo. E o senhor está sentindo muita dor nas pernas, né?
― Oh rapaz, é verdade. Faz um tempo já, mas por quê?
― Não. É que eu conheço um cara que resolve esses problemas.

Desconfiado, José ficou atento, mas decidiu acompanhar o rapaz, tendo em vista que o dia estava claro e a rua, lotada. Depois de andarem um pouco, um homem dentro de um carro o chamou. Estranhamente, ele também sabia seu nome.

― Olá seu José, como está?
― Eu estou bem. O rapaz falou que você tem uma solução para dor.
― Tenho sim, sente aqui.

O rapaz já havia desaparecido nesse instante. Apesar de estar atento aos fatos, seu José viu que o carro tinha uma imagem grande de Nossa Senhora Aparecida, encostada no chão do veículo. Devia ser de alguém religioso.

― Então, primeiro vamos ver se o senhor está bem. Você tem cinco reais? Pegue só cinco reais, porque não quero saber do dinheiro do senhor. Coloque a nota no chão. Agora cuspa em cima dela.

Apesar de estranhar o pedido, a imagem de Nossa Senhora mexeu com a cabeça de José, que cumpriu a ordem. Depois de cuspir na nota colocada no chão, o papel ficou mais vermelho.

― É, isso não é bom. Olha, cuspa nesta folha de papel agora. ― A folha também ficou vermelha. ― É seu José, você realmente não está bem e parece grave. Precisamos fazer um trabalho. Eu vou te levar na sua casa e aí te explico como funciona.

Enquanto o homem o levava até a porta de sua residência, José refletia sobre tudo o que havia acontecido. Um homem que o conhecia lhe parou na rua, sabia que ele tinha dores, chegou a mencionar que ele estava aposentado e conhecia alguém que poderia ajudar. Essa pessoa tinha uma imagem de uma santa (ele também era católico, apesar de não ser praticante), e, ainda por cima, seu cuspe mostrou sangue. Acreditou que podia ser algo grave.

― Olha, para fazer esse trabalho, preciso que você pegue seus cartões do banco e uma roupa que você use. Vamos fazer um trabalho que trará frutos para sua casa e fartura para sua vida. Mas olha, você não deve contar para ninguém.

José entrou em casa, pegou os cartões e retornou ao carro. A família, ao vê-lo, estranhou o jeito com que ele agiu, mas não imaginava do que se tratava.

De volta ao carro, o homem pegou os cartões, e amarrou dentro da peça de roupa.
― Você só deve abrir daqui a sete dias, entendeu? E não deve contar para ninguém.

Depois disso, José voltou para casa. Pouco tempo depois seu telefone tocou. Era o homem.

― Senhor José, faltou uma coisa para garantir o trabalho. Precisamos da senha do seu cartão. Fique tranquilo, que os cartões estão com você.

José só se deu conta de que havia algo estranho após passar os números para o homem. Ao conferir o que havia em sua roupa amarrada, estava somente um porta cartão. José bloqueou as contas bancárias, mas houve tempo suficiente para que uma parte do dinheiro fosse sacada.

Até hoje, ele não entende bem o que aconteceu e desnorteado, quer reencontrar o golpista.

*(nome fictício).
Paulo Talarico, 22, é correspondente de Osasco.
@PauloTalarico
paulotalarico.mural@gmail.com

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