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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Professores da periferia de SP comentam reajuste salarial

Por Blog

No dia 10 de janeiro, o Ministério da Educação anunciou o reajuste do piso nacional dos professores, que passou de R$ 1.451 para R$ 1.567 para a jornada de 40 horas semanais. Um aumento de R$ 115,48, ou 7,97%. Em São Paulo, tanto na rede estadual quanto nas escolas municipais da capital, os professores possuem pisos salariais superiores a este valor. Mesmo assim, os professores que lecionam na capital passam por dificuldades, como relataram em conversas com o Mural.

Odair de Abreu Lima, 50, sempre sonhou em ser professor de história. Em 1994, passou a lecionar na rede pública de São Paulo. Hoje, sua jornada tem início às 7h, quando leciona em uma escola estadual, na zona norte. Por volta das 12h30, segue para outra escola, esta municipal. Ele ainda colabora com um cursinho pré-vestibular popular às quartas-feiras, em Perus.

(Arte: Marcio Dantas de Andrade)

Lima comenta que as más condições de trabalho e a baixa remuneração afastam ainda mais os professores que, para dar conta de todos os seus gastos, precisam trabalhar em pelo menos duas escolas. “A qualidade do nosso trabalho está ligada com a questão salarial. Se pudéssemos lecionar em apenas um, com salário suficiente, as aulas seriam bem melhores”, diz.

No bairro da Mooca, zona leste de São Paulo, a rotina do professor José (nome fictício), 50, efetivo da rede estadual, tem início às 5h30. Para chegar à escola, caminha cerca de 30 minutos. O café da manhã, principal refeição do dia, é consumido em um boteco perto do colégio.

Seu expediente é das 7h às 12h20, exceto duas vezes por semana, quando termina às 14h40. Para reduzir os gastos, José almoça na própria escola. Ao chegar em casa, por volta das 16 horas, aproveita usa seu tempo para preparar aulas, elaborar provas, corrigir trabalhos, lançar notas, fazer cursos de capacitação e ler livros. Devido ao excesso de tarefas, costuma dormir seis horas por dia.

Referente ao reajuste, José considera que seria necessário um aumento de 100%. “A principal dificuldade é na hora de comprar livros, pagar cursos de atualização, alimentação, moradia, saúde e lazer”.

Segundo Lima, o piso nacional é um avanço, pois antes do estabelecimento da lei muitos professores não recebiam nem o mínimo. “Para nós, de São Paulo, talvez esse piso não tenha tanto efeito, mas eu tenho relatos de professores da região norte do país que dizem que foi maravilhoso, pois tinha professor ganhando 300 reais”, comentou.

Para o professor de português, Fábio Nepomuceno, 36, o valor ainda é muito inferior para suprir a necessidade de qualquer família. “Temos muitos licenciados que escolheram não dar aulas, devido à defasagem do salário em relação à formação universitária exigida. Investir em qualidade da educação para todos, sem distinção, é essencial para garantir o progresso econômico que os investidores e donos do capital tanto querem no país”, afirmou.

Nepomuceno leciona na rede pública municipal de São Paulo desde 2005, mas apenas em 2011 pôde iniciar sua especialização em Educomunicação, na USP. Para conseguir comprar a casa onde mora, Fábio teve que realizar dupla jornada de trabalho, o que atrasou sua entrada na pós-graduação. “Ser professor exige uma formação contínua e paralela. A educação só vai melhorar quando todos os professores estiverem estudando”.

Alexandre Ofélio, 43, é correspondente da Mooca.
@alexandreofelio
aleofelio.mural@gmail.com

Jéssica Moreira, 21, é correspondente de Perus.
@gegis00
jessicamoreira.mural@gmail.com

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