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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Estátuas desaparecem das ruas de Osasco

Por Blog

Ao lado da rodovia Castello Branco, escondida em meios as árvores, se encontra uma grande estátua de metal no meio da praça das Monções, no bairro do Piratininga, em Osasco, na Grande São Paulo. Feita de sucata, o monumento, que homenageia a indústria, mostra pequenos homens a trabalhar em mais de três metros de altura.

Apesar da beleza, nenhuma placa explica do que se trata a obra a não ser a assinatura do artista plástico Lúcio Bittencourt, 59. Morador de Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, ele relembra que nas décadas de 1990 e 2000, a Prefeitura de Osasco adquiriu mais de 30 de seus monumentos. Contudo, hoje, ao menos nove obras sofrem com a falta de manutenção.

Monumento no bairro do Piratininga não tem identificação e está pichado.

“Eu até queria restaurar as peças, mas, infelizmente, não fui chamado. Elas estão abandonadas”, afirma Bittencourt, que possui trabalhos em mais de 200 cidades.

A ausência de identificação das obras também ocorre em outros pontos da cidade. É o caso, por exemplo, da estátua presente na avenida Hirant Sanazar, em que Netuno aponta o tridente sobre o córrego Bussocaba. Na rua João Batista, no centro, é possível observar o mesmo com outro monumento em forma de anjo.

Peça que simboliza Netuno, na Avenida Hirant Sanazar. Uma das diversas obras do artista Lúcio Bittencourt

Além disso, algumas peças não estão mais onde foram colocadas inicialmente. “Quando a prefeitura compra uma peça, ela vira patrimônio e tem que ter uma autorização para retirar, mas, no Brasil, o pessoal não respeita”, reclama Bittencourt, que viu o mesmo ocorrer com seu trabalho em outros municípios.

No início dos anos 2000, o jornalista Marcelino Lima, 49, fotografou o filho dentro da réplica feita de sucata de um carro de Fórmula 1. A homenagem ao piloto Ayrton Senna ficava próxima do limite entre Osasco e a cidade de Carapicuíba, também na Grande São Paulo. Hoje, o local aguarda a construção de um terminal rodoviário, entretanto, a réplica desapareceu.

Lima ressalta que o caso não é o único. “Tinha um relógio na [rua] Salem Bechara, que foi parar de frente ao paço municipal, até que sumiu. Também teve o sumiço da réplica de um avião no museu municipal”.

Réplica de carro de Fórmula 1 ficava entre o limite de Osasco e Carapicuíba, mas desapareceu. (Foto: Arquivo Pessoal/Marcelino Lima)

O jornalista faz parte de um grupo de 30 moradores da cidade que tem questionado a prefeitura sobre a preservação do patrimônio.

Recentemente, com as obras de revitalização do centro, três estátuas de Bittencourt – o Moinho de Vento, Dom Quixote e Sancho Pança – foram retiradas e deixadas desmanchadas próximo da Escola de Artes César Antônio Salvi. A mobilização fez o secretário de Cultura da cidade, Fábio Yamato, assumir o compromisso de instalar as estátuas em frente à biblioteca municipal até o início de junho.

“Questionam o porquê cobramos que apareçam as obras e não fazemos barulho por falta de médicos, mas a gente faz isso também. Mas uma cidade só pode ser completa se tiver sua memória, seu acervo cultural e artístico preservados”, afirma o jornalista.

Procurada há mais de uma semana para explicar o estado de conservação das obras e o sumiço das peças, a Prefeitura de Osasco não respondeu até o fechamento da edição.

Veja outras peças de sucata na cidade aqui.

No dia 23/5, a Prefeitura de Osasco, por meio da Secretaria da Cultura, esclareceu ao Mural que está realizando uma vistoria técnica em todos os locais onde estão instalados os monumentos. O levantamento tem como objetivo identificar quantos são, suas condições de conservação, autoria, necessidades de restauração e histórico. O órgão pretende publicar um guia ou um mapa com as informações catalogadas.

Leia trechos da nota:

Sobre o desaparecimento das peças, a secretaria informa que o Carro de Fórmula 1 foi retirado em razão das obras de melhorias do fluxo viário do Km 21. Encontra-se guardado, em bom estado, na antiga área da regional responsável pelo entorno de Quitaúna. O órgão estuda instalar a peça em um novo local.

O órgão diz, também, que há duas réplicas de avião: uma está em exposição no próprio museu e a segunda, em razão da necessidade de restauro, encontra-se no acervo técnico, localizado no Centro de Eventos Pedro Bortolosso. A peça faz referência ao avião construído no início do século XX pelo barão e inventor Dimitri Sensaud de Lavaud, que residiu durante um tempo no Chalé Bricola, hoje Museu de Osasco.

Quanto à Estátua de Metal na praça das Monções, o órgão ressalta que a Secretaria do Meio Ambiente realizará serviços de podas no espaço e que será instalada uma placa de identificação com dados sobre o objeto artístico. Informa, ainda, que será adotada uma melhor iluminação para destacar a estátua e que vai remover a pichação da peça com produtos que não alterem as características originais do trabalho.

A secretaria afirma que as obras Moinho, Sancho e Dom Quixote estão desmontadas aguardando a reinstalação em frente à Biblioteca Monteiro Lobato, na avenida Marechal Rondon.

Paulo Talarico, 23, é correspondente de Osasco.
@PauloTalarico
paulotalarico.mural@gmail.com

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