Mural

Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

 -

Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Condomínio privado na Cidade Tiradentes começa a mudar lógica habitacional do bairro

Por Blog

Mesmo para os mais distraídos é difícil não perceber as duas torres que surgiram há poucos meses na Cidade Tiradentes, o bairro mais populoso da zona leste de São Paulo — com cerca de 250 mil habitantes.

O condomínio, que deve ser entregue no primeiro semestre de 2014,  contará com piscina, salão de festas, aparelhos de ginástica e churrasqueira. A novidade não muda só a paisagem local, mas também a lógica de morar no bairro, pois representa a chegada de empreendimentos privados.

O edifício está sendo erguido atrás da igreja Congregação de Deus, que fica ao lado do terminal de ônibus da Cidade Tiradentes.

Quem mudou-se ainda na década de 1980 quando o mar de prédios iguais, com no máximo cinco andares, foram entregues pela Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação), conhece bem a história de urbanização da antiga fazenda Santa Etelvina.

O que na época era tão somente uma mata transpassada por uma imensidão de pequenos prédios cinzas é, hoje, um bairro colorido: tem comércio para todo lado, praças, bibliotecas, centros culturais, escolas e creches.

Para o educador cultural de xadrez Fernando Henrique, 23, casado há cerca de três meses, adquirir um apartamento da construtora é uma oportunidade de não sair do bairro, além de fazer um bom investimento.

Ele acredita que, em pouco tempo, o apartamento que hoje comprou por R$ 130 mil estará mais valorizado nos próximos anos. “A chegada do monotrilho e, quem sabe, de uma estação de metrô, vai valorizar muito a região. Nos últimos anos, a Cidade Tiradentes já melhorou muito. Hoje tem quase tudo aqui: hospital, supermercado, praça, espaços de lazer, cultura”, diz Henrique.

Empreendimento financiado pela iniciativa privada é construído na Cidade Tiradentes

O que despertou o desejo da teleatendente Taluia Mistero, 26, e do torneiro mecânico Fábio Pace, 37, casados há cinco anos e moradores antigos do bairro, foram as condições facilitadas do financiamento, que pedia uma entrada mínima de R$ 3 mil.

“A gente gosta da Tiradentes, e eu ficaria morando perto da casa da minha mãe. Além disso, o condomínio oferece uma estrutura que a gente não tem nos prédios da Cohab. É um lugar fechado, com playground para as crianças brincarem, porteiro, vigia, tem mais segurança. E penso nos filhos que pretendemos ter”, afirma Taluia.

Tanto para ela quanto para Fernando, que dizem não ter vontade de sair do bairro, a Cohab é um bom lugar para viver. Entretanto, os dois concordam em uma coisa: a distância do centro e a falta de transporte público eficiente são problemas difíceis de lidar e merecem atenção especial. Uma outra preocupação dos moradores é a especulação imobiliária que pode atingir o bairro nos próximos anos.

Para o analista de TI Rafael José, 24, que mora na mesma avenida onde está localizado o edifício, a chegada deste e de outros empreendimentos pode aumentar o custo de moradia no bairro.

Atualmente, um apartamento da Cohab, que esteja quitado e possa ser financiado, vale em torno de R$ 80 mil, enquanto no novo condomínio, o valor do apartamento pode ultrapassar  R$ 200 mil.

“Se ficar inviável morar nos bairros periféricos, onde a população com menor poder aquisitivo vai morar? Vamos criar os guetos depois dos guetos?”, questiona o jovem.

 

Regiany Silva, 24, é correspondente da Cidade Tiradentes
regianysilva.mural@gmail.com

 

Blogs da Folha