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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Prefeitura derruba prédio da primeira indústria de Osasco

Por Blog

Uma estrutura que representa a primeira indústria de Osasco, na Grande São Paulo, começou a ser demolida em janeiro pela prefeitura da cidade. Há cerca de 130 anos, nascia a Cerâmica Industrial de Osasco, posteriormente batizada de Hervy, que atuou durante 100 anos no município, antes mesmo da emancipação.

No local, serão construídas a nova sede da prefeitura e da Câmara dos Vereadores, além de um espaço a ser explorado de forma comercial, em uma operação urbana feita para revitalizar o centro. A previsão é que o novo Paço Municipal esteja pronto em três anos.

“É muito triste ver a história indo para o lixo. Você tem uma perda de identidade”, critica a jornalista Simone de Carvalho Lourenço, 34. Ela é delegada da região no Orçamento Participativo, responsável por levar as demandas dos moradores à prefeitura.

Ela explica que, após o fechamento da fábrica, nos anos 2000, o local ficou abandonado, o que aumentou a falta de segurança no bairro do Jardim Bonfim —próximo à fábrica.

“Era um lugar abandonado, com vasos de água parada que traziam riscos à saúde pública. Por um lado, é ótimo resolver o problema”, afirma. “Mas é uma parte histórica que está se perdendo. Poderia ser feita [a intervenção] preservando alguma parte da fábrica.”

fabrica_osasco
Infográfico: Regiany Silva

A empresa foi iniciada como uma olaria em 1884 por Antonio Agu, fundador da então Vila Osasco. “A história da cerâmica se confunde com a própria história da cidade de Osasco”, afirma Antonia Mayo, diretora presidente da Hervy, por email. Por ali, chegaram a ser empregadas 400 pessoas.

A estrutura, que começou a ser derrubada em janeiro, foi levantada em 1950, no lugar dos antigos prédios da Cerâmica.

O fisioterapeuta André Myga, 33, mora em uma casa que ficava ao lado da antiga indústria e também reclama da falta de preservação. “Quem pensa no [benefício do] prédio novo, pensa na parte financeira, da valorização do bairro, mas não na valorização cultural”, ressalta.

Outra preocupação é o quanto as novas torres comerciais e as sedes do poder público vão impactar no trânsito local. “É um bairro que não foi pensado nesse funcionamento [circulação intensa de veículos]”, diz Myga.

Um projeto de lei chegou a tramitar em 2003 na Câmara Municipal para estipular o tombamento histórico. Porém, a legislação, de autoria do vereador Jair Assaf, não passou pela Comissão de Constituição e Justiça, pois foi considerado que apenas o prefeito poderia tombá-lo.

Questionada sobre o impacto histórico da demolição da fábrica, a Prefeitura de Osasco se limitou a dizer que “a obra atendeu a todas as normas e legislações vigentes. Todos os alvarás estão em ordem”. Ressaltou que o projeto faz parte de uma operação urbana que teve aval da Câmara Municipal em 2010.

Prédio no início de janeiro, antes da demolição. Construção ocorreu em 1950
Prédio no início de janeiro, antes da demolição. Construção ocorreu em 1950

DEMOLIÇÃO CAUSA IMPASSE

Perto da fábrica, outra intervenção prevista na operação urbana para revitalizar o centro vive impasse. A demolição dos prédios do Conjunto Nova Grécia vai completar um ano de atraso em maio. Em 2012, o Mural publicou matéria em que foi anunciado que as três torres, levantadas há 40 anos, seriam derrubadas para a construção de dois novos apartamentos. Porém, apenas um dos prédios foi demolido. A FBI Demolidora informou que a proprietária, a Urbanizadora Continental, não autorizou a sequência dos trabalhos. A Urbanizadora não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Paulo Talarico, 23, é correspondente de Osasco
@PauloTalarico
paulotalarico.mural@gmail.com

Arte:
Regiany Silva, 24, é correspondente da Cidade Tiradentes
regianysilva.mural@gmail.com

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