Cotidiano na zona norte inspira aposentado a escrever contos

Por Blog

José Altair Abranches, 86, também conhecido como Tatá, mora há mais de 30 anos no bairro Jardim São Paulo, na zona norte de São Paulo. Aposentado, ele tem três contos escritos baseados em cenas que vê em seu dia a dia, mas nunca publicou nenhum. O máximo que fez foi inscrevê-los em concursos de talentos da maturidade. Nunca conseguiu o prêmio máximo, mas guarda com carinho os certificados de participação.

Tatá teve 46 anos de vida profissional, boa parte deles divididos em empresas ligadas ao transporte, como a Estrada de Ferro Sorocabana e a Dersa (Desenvolvimento Rodoviário). Na Sorocabana trabalhou no Tramway. “O trenzinho foi, por muitos anos, meu meio de transporte. Na época morava na Vila Paulicéia, que ficava entre as atuais estações Carandiru e Parada Inglesa”, explica.

Em 2012 escreveu o conto “2014, Copa e Maria Fumaça”, com base no que vivenciou no Tramway. “É um continho despretensioso, romanceado, que conta a história de dois jovens preocupados com a precariedade dos meios de transportes de São Paulo. Os personagens bolam um projeto visando levar as linhas do Metrô até Guarulhos, utilizando o antigo traçado do Tramway da Cantareira”, resume.

Já no conto “A Moça do Táxi”, José Altair inspirou-se em uma cena que presenciava de seu quintal. Todos os dias, uma vizinha parava em frente ao seu portão com um taxista e, depois de muito conversar, descia a pé para sua casa.

Nesses dois contos, ele usa em seus personagens os nomes da esposa, dos cinco filhos, netos, bisnetos e até dos animais de estimação.

Vive com a esposa Ana Rosa Abranches, 82, há 64 anos. Casaram-se em 1950 e hoje, enquanto Altair usa de suas memórias para escrever os seus contos, Ana Rosa começa a apresentar perda de memória, sinais do Mal de Alzheimer.

Em mais de três décadas, o bairro mudou muito. Altair vê como principal mudança o aumento do trânsito. “A Leôncio de Magalhães tem muitas lojas de aluguel de roupas de festa. As ruas adjacentes ficaram um pandemônio para os motoristas. Difícil estacionar porque o Metrô Jardim São Paulo fica por ali e todo o mundo o procura para parar o carro”.

Ao mesmo tempo, a região ainda conserva um ar de cidade do interior. “Na igreja Nossa Senhora Aparecida, às 18 horas, todo o bairro ouve o som de um gravador tocando a Ave Maria, na voz do Agnaldo Rayol”, conta.

Para ele, um dos destaques do bairro é o Mirante de Santana, a principal estação meteorológica do Instituto Nacional de Metereologia (Inmet). “A aprazível praça com aparelhos que medem a umidade do ar, a temperatura e a quantidade de chuva, é, também, o local para encontros noturnos de namorados, usuários de drogas e daí por diante”, finaliza José Altair.

 

Aline Kátia Melo, 30, é correspondente da Jova Rural
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