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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Pipoqueiro resolve deixar capital paulista para viver no interior da Bahia

Por Blog

As roupas e objetos pessoais encaixotados na sala de estar não escondem a ansiedade do baiano Egídio Gonçalves da Silva, 68, em retornar de vez para a sua terra natal. Vivendo desde os 14 anos em São Paulo, ele sente que já está na hora de voltar a morar junto de sua mulher e seu filho em Mundo Novo (BA). Nesta semana, Silva embarca em um ônibus para visitá-los pela última vez antes de se mudar definitivamente para o Nordeste.

“Quero voltar para a Bahia por conta da minha idade. O que é que eu ainda vou fazer aqui? Minha família está lá! Isso aqui [São Paulo] é para quem é novo”, contou Silva. Caseiro e bastante comunicativo, o baiano se prepara para deixar a residência de três cômodos na qual vive sozinho.

Apesar de estar só, o baiano tem parentes espalhados pelo país. Do primeiro casamento, teve três filhas, sendo que duas moram em Santa Catarina. A mais nova reside em São Paulo, na parte da frente de seu terreno. Já na segunda união, ele e a mulher tiveram Eduardo, 17. O jovem se mudou para a Bahia com a mãe, pois a avó materna tem uma saúde muito frágil.

Sua história em São Paulo começou no início da década de 60 quando tomou o mesmo rumo de muitos rapazes de sua idade e veio para a capital paulista.  Ele subiu em um trem movido à lenha no município baiano de Barra do Mundo Novo e seguiu até Paraguaçu (MG). De lá, pegou outra composição para Montes Claros (MG), onde embarcou em uma nova viagem sobre trilhos para Belo Horizonte. Por fim, chegou à metrópole. “Foram oito dias de viagem e os trens eram muito apertados” lembra.

Vendedor de pipoca planeja retornar para sua cidade natal na Bahia
Vendedor de pipoca planeja retornar para sua cidade natal na Bahia (Foto: Rafael Carneiro da Cunha)

Seu primeiro trabalho na cidade, quando ainda era menor de idade, foi cavar um poço em Cidade Ademar, zona sul. Devido ao esforço e dedicação, em menos de um mês já estava desempenhado outra função, a de servente de pedreiro. Ao longo do tempo, trabalhou também como carpinteiro até começar a vender pipoca. Hoje, aposentado, Silva ainda trabalha no ramo e o seu ponto é em frente a um dos portões da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde já está há mais de 40 anos.

Quando chega para trabalhar, depois de percorrer 25 km desde sua casa no Jardim Lucinda até o Mackenzie, na zona oeste, sempre cumpre um ritual: pega um antigo rádio de pilha, amarra-o ao carrinho de pipoca e sintoniza em uma de suas estações preferidas. Segundo o baiano, o aparelho não pode faltar, já que é seu maior companheiro durante o dia.

Apesar de o movimento de professores e estudantes ser intenso toda a semana, a concorrência fez com que Silva diminuísse seu faturamento. Entre pipocas doces e salgadas, seu ganho é de R$ 35 por dia em média.

Antes de se mudar para onde reside atualmente, o baiano chegou a morar na zona sul e no centro da cidade. Silva só descobriu o Jardim Lucinda depois de se casar com sua primeira mulher, pois a sogra vivia na Vila Progresso, um bairro vizinho.

“Morei em outras casas até chegar nesta que estou agora”. Sua atual residência em São Paulo já está repleta de caixas espalhadas pelo, chão e com as memórias que serão levadas para a Bahia, onde Silva começará uma nova jornada.

 Rafael Carneiro da Cunha, 24, é correspondente da Lapa
@rafaelccunha
rafaelccunha.mural@gmail.com

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