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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Extinto há 50 anos, trem da Cantareira atendia zona norte e Guarulhos

Por Blog

31 de maio de 1965. Nas bancas, a Folha anunciava: “Corre hoje o último trem de Tucuruvi a Guarulhos”. Era o fim do Trenzinho da Cantareira, o principal meio de transporte da região norte de São Paulo durante seis décadas.

O Tramway ligava o centro da cidade à Serra da Cantareira e a Guarulhos. A linha chegou a ter 45 estações e paradas e um ramal para a base aérea de Cumbica. No auge do movimento, em 1941, transportou 4 milhões de passageiros.

A ferrovia foi inaugurada em 1894 apenas para viabilizar a construção de reservatórios de água na Serra da Cantareira, mas logo a população pediu que o trem substituísse o transporte público de bondes puxados a burro. No início, a linha foi usada para passeios nos domingos e feriados. Com o tempo, as viagens passaram a ser diárias.

Considerada obsoleta e deficitária, a ferrovia foi desativada aos poucos, os trilhos e dormentes retirados ou cobertos com asfalto e todas as estações demolidas, inclusive a do Jaçanã, famosa pela música “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa.

O fundador do Museu Memória do Jaçanã, Sylvio Bittencourt, 84, diz que o cantor acompanhou pessoalmente a demolição. “O povo chorou quando ele cantou o trecho de ‘Saudosa Maloca’ – ‘Que tristeza que nóis sentia. Cada táuba que caía, doía no coração'”, revela.

Hoje, apenas uma parte da estrutura da estação Guarulhos permanece, abrigando uma unidade da Guarda Civil local.

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Aproveitando o traçado ferroviário, a prefeitura paulistana construiu a ponte Cruzeiro do Sul, sobre o ainda limpo rio Tietê, e implantou vias para o trânsito de veículos. O custo do transporte público na zona norte subiu. As novas linhas de ônibus cobravam o dobro do preço do bilhete do trem.

Para substituir o Trenzinho, em 1975 a linha 1-azul do metrô chegou a Santana, enquanto a extensão ao Tucuruvi foi entregue em 1998. Já as obras da ligação férrea entre São Paulo e o aeroporto de Guarulhos, pela zona leste da cidade, começaram no final de 2013. Segundo a CPTM, ao custo de R$ 1,788 bilhão, “a previsão é que a linha 13-Jade entre em operação a partir de 2017”, 52 anos após a última viagem do trem da Cantareira.

O maquinista aposentado Joaquim dos Santos, 87, trabalhador na ferrovia até 1964, afirma que “interesses econômicos para construir avenidas e implantar linhas de ônibus” causaram o fim da linha.

Antes de chegar a maquinista, Joaquim foi limpador de locomotiva e foguista, alimentando a fornalha do trem. Rindo, ele explica o apelido de Maria Fumaça dado às composições: “além da fumaceira, o trem soltava fagulhas que faziam furinhos nas roupas das pessoas. Era cheiro de queimado a viagem toda”.

O aposentado diz que o Trenzinho também tinha a fama de casamenteiro. Ele mesmo foi vítima do “cupido ferroviário”. Numa tarde ensolarada, próximo à estação Tucuruvi, o maquinista avistou uma “simpática moça” no quintal de uma casa vizinha aos trilhos.

Dos primeiros acenos tímidos, ele passou a acionar o apito sempre que o trem se aproximava daquela casa. “No começo, o irmão dela se opôs ao namoro, mas os pais consentiram e logo casamos”, relembra. O casal, Joaquim e Josefa, está junto há 65 anos.

Sidney Pereira, 59, é correspondente de Vila Maria
@sidneypereira00
sidneypereira.mural@gmail.com

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