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Rapper da zona leste é selecionado para disputa de poesia falada em Paris

Por Blog

Lucas Afonso, 23, é um rapper e morador do Jd. São Carlos, na zona leste de São Paulo, que sonhava ser jogador de futebol quando criança. Mas foi graças a escrita e a fala que chegou à sua primeira copa do mundo. O jovem, após vencer uma disputa nacional, irá representar o Brasil na final de uma competição de poesia falada –conhecida como SLAM–, em Paris.

Na França, o compositor irá tratar de temas sensíveis, como a atual crise de refugiados na Europa em contraposição aos processos de colonização. Nessa aposta, reside a chance do Brasil trazer para casa o título inédito de campeão da Copa do Mundo de Poesia SLAM.

Mas Lucas prefere ressaltar o caminho aberto por seus antecessores ao comentar a participação na disputa, ainda sem data para acontecer. Ele citou a importância de Emerson Alcalde, morador da zona leste e vice-campeão mundial de 2014, em sua trajetória.

“Quando o Emerson ganhou, não tinha tantos [eventos de] SLAMs na cidade. Depois da vitória dele surgiram mais alguns, inclusive eu criei um devido a isso, inspirado naquele momento”, afirma. “É preciso responsabilidade com a palavra, porque a gente não sabe o tamanho da consequência que isso tem.

Os SLAMs são espaços coletivos de trocas poéticas surgidos na década de 1980 em Chicago. Nos campeonatos, a regra básica é que cada poeta faça uso de textos autorais de até três minutos, sem acompanhamento musical ou uso de adereços. No Brasil, o primeiro evento do tipo foi o ZAP! SLAM, idealizado por Roberta Estrela D’alva.

Foi lá que Lucas experimentou a modalidade pela primeira vez, sofrendo um choque ao ver suas poesias sendo avaliadas por jurados escolhidos entre o público. Hoje, ele entende o SLAM como um esporte.

“Quando a gente joga um futebol na quebrada ninguém volta pra casa pensando que é um derrotado, ruim, incapaz. Passei a entender o SLAM dessa forma, um esporte, como a prática da oralidade e um espaço para mostrar meu trabalho. ”

Lucas Afonso criou seu próprio evento de Slam em São Paulo. Foto: Divulgação
Lucas Afonso criou seu próprio evento de Slam em São Paulo. Foto: Divulgação

A identificação com o gênero foi tão grande que Lucas fundou o seu próprio evento, o Slam da Ponta, que acontece mensalmente no Instituto Reação Arte e Cultura, na Cohab 2, em Itaquera. Além do trabalho como rapper e slammer, ele também integra o coletivo Filhos de Ururaí, que faz intervenções poéticas dentro dos trens e metrôs de São Paulo.

COMPOSIÇÃO
O primeiro contato do rapper com a música foi nas rodas de samba que aconteciam no bairro em que mora, e por meio de atividades na escola conheceu o rap. Desde então, não parou mais de escrever, usando os fatos de seu cotidiano como inspiração para suas letras.

“Foi daí surgindo meu interesse por poesia, ia escrevendo na última folha do caderno, alguns pensamentos, ideias. No colegial [sic.] eu decidi que queria cantar rap, ter uma carreira no rap. Quando comecei a trabalhar na empresa de ônibus foi o estopim para me surgirem várias letras”, conta Lucas.

Após tomar gosto pela escrita, o jovem rapper encontrou nos saraus a oportunidade ideal para expressar suas ideias.

“Com o tempo conheci essa cena dos saraus e achei muito libertador, um espaço democrático para se manifestar da forma que quiser; ser ouvido e poder ouvir a arte e a poesia que é feita por pessoas como eu.”

O primeiro trabalho autoral do rapper foi o EP “À Margem”, lançado de forma independente e custeado por meio de financiamento colaborativo. Para 2016, Lucas promete um novo disco, que já está em processo de gravação.

Gustavo Soares
, 23, é correspondente de São Miguel Paulista.
gustavosoares.mural@gmail.com
@gustavostu

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