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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Fotógrafa de Mogi das Cruzes faz ensaio para mostrar a “dor de ser mulher”

Por Blog

Em Mogi das Cruzes, na grande São Paulo, a fotógrafa Lethicia Galo, 27, realizou um ensaio intitulado “A Dor de Ser Mulher” com algumas moradoras da região para retratar a opressão e o machismo na sociedade. Lethicia foi convidada a fazer as fotos para comemorar o primeiro aniversário do coletivo Impacto feminista. Agora, suas fotos ganharam uma exposição na USP, no saguão da FMVZ USP, que vai até domingo (13).

A mostra faz parte de coletivo feminista chamado Ercilia Cobra, da medicina veterinária da universidade. “Algumas escolas também entraram em contato pra expor as fotos, e fizemos, em uma delas, uma discussão com alunos do ensino médio sobre feminismo e empatia. É bonito ver todas se juntando e lutando com uma dor comum”, disse ao Mural. Na entrevista a seguir, a fotógrafa explica como o projeto mudou sua própria visão sobre padrões de beleza.

Mural – Como surgiu a ideia de criar esse projeto fotográfico? O que a levou a realizá-lo?
Lethicia Galo –
Fui convidada por um Coletivo de Mogi a fazer uma exposição sobre as mulheres por conta do aniversário de um ano do coletivo [Impacto feminista]. Quando me foi proposto, fiquei um pouco perdida por estar sempre de frente com muitas fotos de mulheres bonitas e dentro dos “padrões”. Foi então que resolvi perguntar para algumas amigas e pessoas que estão se conhecendo e se buscando dentro do seu feminino “o que é ser mulher?”. Com algumas respostas que tive, resolvi abordar as questões. Muitas delas reclamavam de não poderem ter o cabelo que queriam, diziam que ser mulher é sempre estar de frente com julgamentos, que é se autoafirmar dentro da sociedade. Aí, decidi algumas questões comuns, e chamei algumas amigas para fazer as fotos.

 Você teve alguma ajuda para a realização desse ensaio? Como foi realizá-lo?
Sim. Nunca vou dizer que esse projeto é um projeto feito por mim somente. Estou em desconstrução ainda e buscando informações por todos os lados.

Tenho um amigo que considero muito que sempre me dizia pra fazer logo o que eu gostaria de fazer, sem pensar no que os outros iriam pensar. E durante esses oito anos que nos conhecemos, eu sempre coloquei esse véu na minha frente, com medo de ser julgada. Quando recebi esse convite, e fui falar com ele da minha ideia, ele me ajudou com algumas questões sociais, com alguns entendimentos e formas de ver a mulher diferente do que eu via. Na execução e produção, muitas amigas se mobilizaram pra buscar e conseguir os itens que eu tinha pensado para as fotos. No dia, também tive ajuda de algumas amigas que quiseram estar presentes, e das fotografadas que me acompanharam do começo ao fim do ensaio.

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Quem são as mulheres retratadas?
São amigas que se identificam com as dores. O abuso que elas retratam na foto, são abusos que elas realmente vivem ou viveram na vida. São amigas que cresceram comigo, vivemos juntas “a dor de ser mulher”, são amigas que diariamente têm que se reafirmar como mulher, são amigas em processo de entendimento também do que é ser mulher, assim como eu.

Como tem sido o feedback dos moradores e mulheres da cidade e região?
Algumas mulheres que me encontram comentam sobre as fotos e agradecem pelo projeto. Recebi algumas mensagens de mulheres do Brasil inteiro dizendo que se sentiram representadas. A exposição que aconteceu por conta do aniversário do Coletivo teve duração de um dia. A exposição está hoje na semana da mulher na USP.

Como você vê o retrato da mulher na periferia?
Ainda falta visibilidade na mulher da periferia. Mas já há mulheres revertendo esse quadro e formando coletivos para expressarem suas ideias e terem cada vez mais voz e espaço, como “Fala Guerreira” e “Levante Mulher”, que são coletivos em que algumas meninas retratadas no projeto admiram muito.

Como você vê a mulher hoje?
Descobrindo seus próprios quereres. Ser mulher hoje, é estar em descoberta da sua força.

Há quanto tempo você trabalha com a fotografia e o que acha desse ramo para as mulheres?
Trabalho como fotógrafa há 12 anos. Logo quando saí da escola tive a oportunidade de seguir nessa área onde atuo até hoje. Na fotografia social e de eventos, percebo que há pouco preconceito em mulheres trabalharem como fotógrafas.

O que você espera da mulher no futuro?
Eu espero uma mulher sem medo. Uma mulher com consciência de qual é seu real papel na sociedade, mulheres conectadas com sua essência. Que possamos andar na rua com segurança e tranquilidade, e que acima de tudo nos libertemos dos nossos próprios preconceitos.

Jéssica Silva, 25, é correspondente de Mogi das Cruzes.
@jessicasps_
jessicasilva.mural@gmail.com

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