Pesquisa de mestrado resgata memória negra de Guaianases

Por Blog

Izilda Lopes, 61, se recorda que, na infância, acompanhava a mãe no trabalho em uma casa de família onde brincava com as filhas das patroas antes de ir para a escola.  “Então é a tal história. Você por ser mais escura do que elas, sempre tinha que ser a empregada, a babá. [Era] na brincadeira, mas eu sofri esse tipo de racismo na infância”, enfatiza.

Moradora de Guaianases, na zona leste da capital, há 55 anos, seu relato faz parte da tese de mestrado em História Social de Sheila Alice Gomes da Silva, 34, apresentado recentemente na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC.

Assim como Izilda, Sheila é negra e moradora do bairro, e buscou retratar a memória e a cultura afrodescendente da região com objetivo de trazer relatos silenciados durante muitos anos. “Quantas histórias habitam Guaianases?”, diz. “Onde estão as memórias do povo preto? Foram apagadas das histórias de um bairro que se quer branco?”, questiona.

Essas interrogações a acompanharam durante a infância. Sheila vive há mais de 30 anos em Guaianases e nunca se reconheceu na história de desenvolvimento do bairro.  Com a pesquisa,  concluiu que a memória negra e sua cultura ainda são desconhecidas no bairro que, durante seu desenvolvimento, teve evidenciadas históricas de “heróis brancos”.

Pesquisa resgata história da população negra de Guaianases. Foto: Daiane Cristina / Folhapress
Pesquisa resgata história da população negra de Guaianases. Foto: Daiane Cristina / Folhapress

“Meu pai e minha mãe foram uns dos fundadores de Guaianases”, afirma Penha Severino, 57, filha de migrantes de Minas Gerais que se instalaram no bairro antes de seu nascimento. “Não sei ao certo o ano que chegaram aqui, mas meu irmão de 68 anos já nasceu aqui. Meu pai construiu quase todas as casas de Guaianases na época”, explica.

Outro ponto da pesquisa foram as certidões de nascimento de negros, entre os anos 1930 e 1960, no cartório do bairro. Eles apontavam que a maioria dos registros de nascimento era de brancos, uma informação não condizente com a realidade, já que na região sempre houve predominância de afrodescendentes.

A razão para esta incoerência, segundo pesquisa, seria a renda, pois a população negra teria deixado de registrar os bebês durante o período em que o governo cobrou uma taxa para o serviço. Nesta época, a maioria de crianças nascidas na região era de brancos. Mas quando o pagamento foi extinto, o resultado foi o oposto.

Após apresentar sua pesquisa na PUC, Sheila foi aprovada e obteve nota máxima. Ela afirma que está aberta às propostas de editoras e colaboradores para que possa publicar sua tese e, ainda, fechar parceria com a diretoria regional de educação do bairro para aproximar os alunos das histórias.

“Quando toda uma realidade social te diz não e te empurra a calar-se, ainda assim você pode gritar. Mesmo que todas as portas pareçam fechadas para nós, há sempre uma janela a se abrir”, ressalta.

Daiane Cristina da Silva, 22, é correspondente de Guaianases
@Daai_Cristina
daianecristina.mural@gmail.com

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