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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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‘O break era dançado por amor’, diz Chileno, b-boy de 57 anos

Por Blog

Eram 10h15 de uma quinta-feira quando encontrei no ponto de ônibus o b-boy que se intitula como um dos dançarinos mais velhos do Brasil de breakdance (estilo de dança que faz parte dos quatro elementos do hip-hop).

‘Chileno’, ou José Carlos Barroso, tem 57 anos de uma história de amor envolvendo muita dança e o estilo.

O dia nublado não nos impediu de caminhar pelo campo de futebol onde ‘Chileno’ costuma treinar todos os dias, na Vila Rosina, em Caieiras, na Grande São Paulo. A escolha não foi à toa. Dias depois da entrevista, um evento organizado pelo Grêmio Vila Rosina homenageou o artista no mesmo local.

“Muita gente tem preconceito, acha que somos marginais, por nos ver com essas roupas. O hip-hop pode colaborar em todos os aspectos e em qualquer lugar. Para ingressar no mundo do trabalho, eles precisam de cultura, educação, humildade e respeito, elementos do hip-hop”, aponta o b-boy e arte-educador, que sonha em transformar sua comunidade por meio do ritmo.

Foi em São Luís do Maranhão que, em 10 de outubro de 1958, vinha ao mundo José Carlos Barroso, apelidado de Chileno em uma batalha (competição de dança) em São Paulo, por conta dos olhos miúdos, apertados, que leva no rosto.

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Conhecido em rodas de dança São Paulo afora, ‘Chileno’ acompanhou o começo do hip-hop tanto em seu estado natal, quanto na São Paulo dos anos 1980 e 1990, quando os jovens se reuniam na região do Metrô São Bento (veja aqui o documentário Nos Tempos da São Bento), 24 de Maio, ou na Praça Rooselvelt, para conhecer o ritmo que chegava ao país.

Cresceu na periferia da capital maranhense, onde plantava verduras para sustentar a mãe e a avó. Aos 15, o menino deixou a vida interiorana para se aventurar pelo centro de São Luís, onde teve o primeiro contato com o hip-hop, por meio do skate. “No Maranhão, já rolavam as músicas de hip-hop e eu não sabia o que era”.

Ao redor de sua casa, o estádio Governador João Castelo, o Castelinho, era o point da molecada. Um dia, enquanto treinava, se surpreendeu com os movimentos de breakdance, que quase caiu da pista. Foi quando deixou o esporte para aprender a dançar.

Dois anos depois, tornou-se segundo lugar em festival na cidade.  A vontade de ganhar visibilidade e criar independência de sua família, o fez abandonar a construção de uma casa na beira da praia para migrar em direção a São Paulo.

FLUXO GRANDE EM SÃO PAULO

Chegando à Terra da Garoa, no início dos anos 1980, sentiu medo da multidão que atravessava o Terminal Tietê. Com os documentos em mãos, ficou à espera de um conhecido que havia lhe prometido emprego. O trabalho, na avenida Amaral Gurgel, no centro de São Paulo, era de repositor em supermercado e aproveitava o horário de almoço para ir para as rodas de break.

Segundo o b-boy, a maior parte dos meninos era de origem nordestina, de 15 a 20 anos. “Pessoas vinham de lá para São Paulo para trabalhar e quando surgiu o hip-hop esse fluxo foi grande, todo mundo queria aprender. Todo lugar que via espaço para treinar, eu treinava. No Anhangabaú, na República, na estação São Bento do metrô. Mal imaginava eu que a São Bento iria se tornar o mundo do hip-hop mais tarde”.

Em seu grupo, cada matéria de jornal que falava da cena do hip-hop na ‘gringa’ era recortada e organizada em uma pasta que girava entre eles, sem contar que ‘Chileno’ era um dos poucos que tinha rádio-gravador para passar as músicas dos discos em vinil para o cassete. “O Box (rádio) era a nossa arma no break”, afirma.

“Guardávamos todas as fotos para mostrar no fim de semana seguinte para toda a galera. Era uma felicidade muito grande, todo mundo sentava para ver. Numa época que internet nem existia, muitos até escondiam as reportagens, não mostrava para qualquer um”, comenta.

Na época, muitos nem sabiam os nomes dos movimentos em inglês, por isso tudo era chamado de break, até que começaram a organizar os campeonatos. “Muita gente começou a ir para o exterior trazendo filmes, o primeiro que entrou no Brasil foi o ‘Beat Street’ e o único cinema que rodava esse filme era o de filme pornô. Os caras saiam de lá impactados, possuídos, dançando em qualquer lugar, dentro do trem, metrô, ônibus e nas ruas”, relembra.

Chileno aponta que o break foi uma loucura para no Brasil, mas avalia que houve mudanças. “Hoje, a maioria da galera jovem busca mais por status, aparecer na mídia, mas deixaram de lado a cultura hip-hop, a raiz do break. Não se tornaram dançarinos, apenas atletas e isso é triste. Pra gente e pra eles”, lamenta.

“Nós fazíamos tanto por amor que até esquecíamos de ganhar campeonato, era dançado por amor”, conclui.

Jéssica Moreira, 24, é correspondente de Perus
@gegis00
jessicamoreira.mural@gmail.com

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