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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Artista faz música para combater preconceito e celebrar Guaianases

Por Blog

O ano era 1981. Em uma maternidade do jardim Maristela, na zona norte de São Paulo, nascia o artista Aloysio Roberto Alves Vieira de Souza, ou Aloysio Letra, 35, nome artístico escolhido para representar a vida como compositor e escritor. Hoje, Letra mora em Guaianases, na zona leste, e busca compor sobre a cultura negra e seu bairro.

O talento pela música começou a aparecer desde cedo, influenciado pelo pai, advogado, que tinha gravadores de fita-cassete em casa, recebidos como pagamento por quem não podia pagar pelos serviços. “Comecei a me fascinar pela ideia de gravar a voz e a balbuciar pequenas canções”, conta Letra, que foi alfabetizado com apenas 5 anos pela mãe.

“Entendo esta terra [Guaianases] como um bairro de origem indígena, com migração nordestina e atualmente por africanos”, diz. O samba Guainás é Meu Lugar versa entre o fato de morar em Guaianases e alguns marcos de sua vida. “Tento fazer meu trabalho por aqui. Moro aqui, na periferia da periferia, um lugar muito grande e com uma necessidade de atuação local no território”, declara o compositor.

O trabalho musical do artista tem recebido reconhecimento. Em maio, a canção Rua da Glória ficou em 1° lugar no 2° Festival da Canção da Etec de Artes e ele está na disputa para entrar em um caderno produzido por uma das rodas mais tradicionais de compositores do samba paulista, o Samba da Vela.

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Aloysio Letra aborda questão racial em letras (Foto: Divulgação)

A questão da identidade sempre esteve presente na realidade do artista. Na profissão, o pai enfrentou diversas dificuldades para conseguir se estabelecer e apoiava o filho com um conselho. Como contraponto ao preconceito racial que enfrentou, dizia para Aloysio se dedicar para ser três vezes melhor do que os outros.

Em 2012, o cantor iniciou uma pesquisa em grupos que trabalham com a cultura negra tradicional e esteve em contato com referências deste tipo de arte em diversas partes da cidade. Do contato, nasceu o show Enegrescer, Cantar. Para dar continuidade, pensou na Turnê SaraÔnica, uma coletânea de músicas que tratam da cultura negra, periférica e de Guaianases.

Uma das grandes paixões da vida de Letra é o cinema. Depois de trabalhar por sete anos no setor administrativo de um banco, a vontade de ser artista começou a angustiá-lo e a alternativa encontrada foi cursar a graduação em rádio e TV. A partir disso, compôs coletivos que trabalhavam com a estética cinematográfica.

Por ser negro, aponta que seu trabalho foi importante, pois ainda se vê como minoria no campo das artes. “Eu tocando violão, andando de perna de pau em meu bairro, sou uma possibilidade diferente para essa criança, para mim e para a classe artística, pois é comum artistas periféricos abandonarem seus bairros de origem. Quero poder fazer diferente”, afirma.

Lucas Veloso, 21, é correspondente de Guaianases
lucasveloso.mural@gmail.com

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