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Ambulante da poesia, escritor vende seus textos no transporte público de São Paulo

Por Blog

Em uma lotação na zona norte de São Paulo, um ambulante rompe o silêncio com produtos incomuns ofertados geralmente no transporte público. São poemas, contos, textos autorais vendidos com balas e chocolates. O vendedor e autor dos textos é Daniel de Santana Pelotti, 33, ex-técnico industrial, morador da Vila Industrial, na zona leste da cidade.

A nova profissão surgiu num momento de desemprego, entre setembro e outubro do ano passado, segundo Pelotti. “Tinha acabado meu contrato de trabalho, meu dinheiro começou a diminuir, então me lancei nas ruas vendendo aquilo que gostaria que o povo conhecesse, gostasse e aprendesse. Algo que passo verso a verso, linha a linha”, conta.

Como escritor, Pelotti publicou de forma independente o romance Sob os Olhos da Morte. O livro é vendido em dois sites: Clube dos Autores e Bookess. Mas ele também publicou três contos e um microconto, que foram selecionados em concursos por algumas editoras e fazem parte de antologias em conjunto com outros autores.

Há outro conto e um poema que também foram vencedores de concursos realizados pela editora Três Macacos Publicações e aguardam parecer da editora responsável para publicação nas antologias Elementar e Inverno Sombrio. Além dessas, há também outras produções escritas para a venda diária.

Os textos e os doces são cuidadosamente embrulhados em saquinhos de papel celofane colorido e fechados com flores artificiais. “As mulheres são as que mais compram e o período das férias foi o melhor para as vendas, por ter menos passageiros desconcentrados conversando”, avalia.

Mas nem tudo é doce e poético. O escritor relata que um dos desafios de ser um vendedor de textos itinerante é o relacionamento com os motoristas dos ônibus. “Alguns me negam a entrada por não quererem vendedores em seus carros, eles chegam a fingir que nem existo na frente da porta deles. Naturalmente que levo tudo isso na boa. Tanto que até agradeço a todos eles no meu romance Sob os Olhos da Morte’’, diz.

Pelotti explica ainda que alguns passageiros também são difíceis de lidar. “Algumas vezes me vejo divulgando para as janelas e bancos, pois mesmo sendo muitos, eles ficam na maior conversa possível e parecem até aumentar o tom da voz quando começo a falar. Outras vezes nem sequer olham na minha cara”, relata.

Daniel não exclui a possibilidade de um dia voltar a trabalhar como técnico industrial, mas sem deixar de escrever. “Por ora, ser vendedor informal está sendo meu único trabalho remunerado. Desse modo, sigo nas vendas de minhas obras São Paulo a fora como forma de me divulgar e propagar a boa cultura a todos que as obtêm”, diz.

Confira o poema “A vida não para. Ela é esperança” e veja entrevista com o autor no link: ‘Alegria é quando levam meus textos pois mostra que lemos e produzimos cultura’, diz poeta ambulante

Aline Kátia Melo, 33, é correspondente da Jova Rural
alinekatia.mural@gmail.com

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