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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Rapper usa o grafite para gravar CD e cria marca de blusas em Guaianases

Por Blog

Muitos dos grafites espalhados pelas fachadas e paredes de comércios em Guaianases, na zona leste da capital, são fruto de uma ação de um artista da região. Trata-se do rapper e grafiteiro Adriano Vicentini, 37, mais conhecido como Prodígio, que tem na arte seu ganha pão há pelo menos 20 anos.

Prodígio trabalha agora em uma nova música e tem dois albuns gravados. Ele lançou primeiro um CD de forma independente chamado Pru Konsumu dus Tortus. No ano passado, apresentou seu novo disco: Poesias dos Asfalto. Para bancar o trabalho, teve de uma ideia curiosa: fazer uma espécie de ‘crowdfunding’, financiamento coletivo, em que o prêmio era desenhar um grafite.

“Eu nem sabia que tinha esse nome chique”, conta. “Fui nos comércios e fui pedindo pra eles me contratarem para grafitar seus comércios, bares, lojas e que estariam contribuindo na  produção do  meu CD. A aceitação foi na hora”, relembra. 

oficina de graffiti q prodi ... nças da sua comunidade.
Prodígio já deu oficina de grafite para crianças do bairro (Foto: Divulgação)

“Primeiro, eu chorei no estúdio por um preço menor e contei a ele minha história. Levantei R$ 8 mil no total. Mas daí tinha a capa, as fotos e a verba não dava”.

Para finalizar o trabalho, ainda foi necessário a ajuda da produtora gráfica Marcela Sanches, que criou a arte para o CD e as fotos de Rogério Araújo que recebeu 10 blusas estampadas com o apelido do rapper.

A produção foi assinada por André Freitas, produtor musical que já atuou junto a banda Charlie Brown Jr.. O cantor buscou inovar na mistura de diversos gêneros como rock e guitarras distorcidas, baladas pop, além do reggae com a música Garota Caiçara.

“Meu produtor me disse ‘você tem extensão vocal, vamos abusar dela’, e o estilo mais declamado do rap tradicional foi perdendo vez para algo mais cantado e poético justificando o nome Poesias do Asfalto”, reforça.

 

O disco tem a participação de Nelson Triunfo (pioneiro do Hip-Hop Brasileiro), André Pinguim (ex baterista do Charlie Brown Jr.), Lena Papini (ex-baixista da A Banca), DJ Erick Jay (12 vezes campeão brasileiro de DJ’s) e Ytallo Bezerra (filho de Bezerra da Silva).

O lançamento fez com que ele fizesse algumas parcerias e se apresentasse ao lado de nomes como Gog,  Sharylaine, RPW, Nação Zumbi, Cajú e Castanha, Emicida,  Edi Rock, SNJ, Planta e Raiz e Leões de Israel.

TRAJETÓRIA  E FAMÍLIA

Prodígio tem tido também a companhia do filho, Júnior, de 16 anos, e da esposa Paula Santana em apresentações. O filho cantou as primeiras letras aos 6 anos.

“No ensaio, ele [Júnior] pegava o microfone e mandava bem nas dobras do rap, fazia certinho. Ele prestava atenção e decorava as letras, daí resolvemos dar o microfone na mão dele”,  conta. “Nós ganhamos todos os concursos de rap juntos”, afirma.

A ideia de se ser um artista começou na escola, quando ganhou seu primeiro concurso de desenho na terceira série do ensino fundamental. Como prêmio, ele expôs sua obra no Sesc Itaquera. “Após ganhar, me deslumbrei”,  diz Prodígio. “Me lembro que desenhei um bonequinho segurando uma cestinha de flores e eu sempre fui caprichoso com detalhes, como a luz no rosto e degrades”, completa.

prodigio grafitando caricaturas
Prodígio faz caricaturas em Guaianases (Foto: Divulgação)

Ele foi criado pai, Lafaiete Vicentini, e vive na mesma casa em que cresceu em Guaianases. Foi na vizinha que se interessou pela arte das ruas:  skate, grafite e o  movimento hip hop. “Eu e meus irmãos tivemos uma infância precária, mas tentávamos ser felizes, minha rua era de terra então pulávamos a cerca e pegávamos milho para assar na fogueira, com as outras molecadas”, relembra.

Participou  de diversos grupos de rap, como o  HAL (Hip Hop Arte e Loucura) e o Bombardeio H2L, com grafite caminhando paralelamente. “Eu ia na São Bento e trocava folhinha [de desenhos] com os caras. Lá conheci os Gêmeos [grafiteiros Gustavo e Otávio Pandolfo]”.

Sobre a venda das blusas com seu apelido, a adesão não tem vindo apenas de quem gosta de rap. “Eu já vendi mais de 380 blusas de moletom da minha marca só aqui em Guaianases. O mais engraçado é que quem consome é a galera do funk, já passei em vários fluxos e vi vários com blusas da marca Prodígio”, conta.

Cacau Ras, 38, é correspondente do Itaim Paulista
cacauras.mural@gmail.com

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