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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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‘Temos um papel educativo e de valorização da cultura local’, diz diretor da Heliópolis FM

Por Blog

O DJ Reginaldo José Gonçalves, 42, apresentava o programa Revolução Rap em meados de 2000, na Heliópolis FM, zona sul da capital. Sozinho no estúdio, ele foi surpreendido quando, de repente, um policial tocou a campainha. “Fiquei nervoso. Na hora pensei que a rádio seria fechada”, relembra ele sobre as idas e vindas de uma das principais rádios comunitárias da periferia de São Paulo.

Contudo, o policial estava com uma criança de 5 anos que estava perdida. “Ele gostaria que eu anunciasse isso no ar antes de levá-la para a delegacia. Voltei para o estúdio com o menino e abri o microfone para falar do acontecido. Em cinco minutos a mãe apareceu”, lembra. “Essa situação é um exemplo de como a nossa rádio é importante na comunidade”, salienta. Gonçalves está há mais de 15 anos na emissora, na qual atuou como apresentador de vários programas musicais e hoje é diretor.

Fundada pela UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região) em 1992, a Heliópolis FM é considerada pelos moradores uma referência cultural e política do bairro. Nela, trabalham atualmente 30 funcionários entre locutores, sonoplastas e coordenadores. Todos voluntários.

Há 16 anos na Rádio Heliópolis, Reginaldo conta trajetória
Há mais de 15 anos na Rádio Heliópolis FM, Reginaldo Gonçalves conta a sua trajetória (Foto: Arquivo Pessoal)

O DJ entrou na Heliópolis FM um ano após a lei federal 9.612/98, que regulamentava as rádios comunitárias. Na época, a Heliópolis FM já havia abandonado as velhas cornetas presas aos postes de luz e telefone e funcionava ativamente na frequência 102,3 MHz.

Devido à interferência provocada em outras emissoras, ela migrou para a 98,3 MHz. Foi nessa época que o jovem DJ começou a dar os primeiros passos na apresentação do Black Mania, programa voltado para o público jovem.

O DJ lembra que o Black Mania era tão popular entre a garotada que ‘chovia’ ligações pedindo músicas. Tanto que, quando o coordenador da emissora o chamou para uma reunião sobre o programa, ele achava que era para comunicar a ampliação de seu horário.

“Ele queria rever a programação, pois nós [os locutores] estávamos fazendo rádio comercial e não comunitária”, conta. “Foi quando ele me disse para esquecer o meu trabalho como DJ porque a partir daquele momento eu seria um comunicador social”, diz.

Apesar de ter ficado ‘meio bravo’, o locutor abraçou a ideia. “Só depois passei a entender o que ele realmente queria. No microfone, comecei a falar desde brigas entre namorados até esgoto a céu aberto e lixo nas ruas. Com o tempo, eu passei a ter noção da minha responsabilidade”.

Em 2004, a rádio foi fechada pela Polícia Federal e pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), fato que gerou forte mobilização na comunidade da zona sul de São Paulo. “Eles diziam que não tinha canal disponível para as rádios comunitárias de São Paulo”, lembra Goçalves.

Emissora foi criada em 1992 (Foto: Divulgação)
Emissora foi criada em 1992 (Foto: Divulgação)

Pouco tempo depois, a Heliópolis FM voltou a funcionar, mas,após dois anos, sofreria novo fechamento, até que conquistou uma permissão provisória de funcionamento até a autorização definitiva em 2008. Um ano depois, ela passou para a frequência 87,5 MHz.

A rádio conta com uma programação bastante eclética. Entra no ar todos os dias às 6h e sai à meia-noite, e, além da Cidade Nova Heliópolis, alcança bairros vizinhos, como São João Clímaco, Vila Carioca, Sacomã, Vila das Mercês, parte do Ipiranga e do município de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. A rádio também pode ser ouvida online.

Já passaram pela Heliópolis FM artistas como Jair Rodrigues, Leci Brandão, Racionais MC, Sabotage e Criolo, mas há espaço também para aqueles que são locais. “Temos uma restrição às músicas que fazem apologia ao crime, às drogas, à desvalorização da mulher”, comenta.

“A gente entende que a rádio tem um papel educativo e, principalmente de valorização da cultura local. Para os artistas da região que tocam na rádio, a gente cobra, como contrapartida, que eles façam um show para a comunidade”, conclui.

Rafael Carneiro, 27, é correspondente da Lapa
rafaelccunha.mural@gmail.com

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