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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Escritor grafita poesias nos muros da periferia de Suzano

Por Blog

Hoje em dia estão até tirando selfie nos muros do Jardim Revista, bairro da periferia de Suzano, cidade na Grande São Paulo. Com grafites e frases poéticas que chamam a atenção, as paredes de algumas das casas dão cara nova ao bairro depois que o escritor Ademiro Alves, 33, mais conhecido como Sacolinha, criou o projeto “Literatura e Paisagismo – Revitalizando a Quebrada”.

A primeira intervenção foi no muro e portão da casa do próprio escritor, em maio. Já são oito no total. O grafiteiro Todyone, de Guaianases, na zona leste de São Paulo, é quem assina todas as obras, com exceção de uma delas, feita pelo susanense Raça. De acordo com Sacolinha, a ideia é fazer dez intervenções no bairro e outras dez em cada região que receber a iniciativa.

“Esse projeto estava na minha lista há um tempão e em algum momento eu colocaria em prática, inscreveria para algum edital. Mas aí começou a onda do ‘Cidade Cinza’. Aquilo foi me provocando e pensei: ‘não seria agora a hora de colocá-lo em prática?’”, contou o escritor, comentando um apelido do programa ‘Cidade Linda’, do prefeito João Doria (PSDB), em São Paulo, após apagar pichações e grafites na capital no início de sua gestão.

As intervenções conversam, de alguma forma, com o espaço a que foram destinadas e criam uma interação. Os poemas, microcontos e trechos de livros que podem ser lidos nos muros foram todos escritos por Sacolinha.

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Todo o trabalho é feito de forma independente, sem subsídio ou patrocínio. O dinheiro que vai para a ação, o que inclui o pagamento do grafiteiro e a compra das tintas, é arrecadado a partir de metade do ganho com as vendas dos livros do Sacolinha. “Se eu vendo R$ 500 de livros no mês, por exemplo, R$ 250 eu tiro para pagar as minhas contas pessoais e R$ 250 é para o projeto”, explicou ele.

Além de levar literatura e arte à periferia, o escritor descreve como “um projeto de qualidade de vida”. “A pessoa está indo trabalhar com a cabeça cheia, pensando nas dívidas, no trem lotado e de repente vê uma poesia: ‘quando eu era criança vivia correndo atrás das pipas, hoje que sou grande e as pipas caem em meu quintal’. Que bagulho louco, ela pensa, é verdade, hoje cresci e não tenho tempo para as brincadeiras de criança”.

“A gente se preocupa muito em malhar o corpo e às vezes esquecemos de malhar a mente. Os olhos veem cor no bairro, não só o cinza”, comentou. Atrelado a este exercício, estimula-se o plantio de árvores próximo às intervenções. Em uma das calçadas, cujo muro foi grafitado, tinha um buraco onde agora tem um sabugueiro, com canteiro feito por pneus doados.

“Quando comecei o projeto, alguns vizinhos passaram a limpar suas calçadas, tirar o mato, para ficar mais bonito. O pessoal começa a ter uma sensação de pertencimento”, ressaltou. Na página oficial do escritor é possível ver o antes e o depois de cada intervenção.

“Ficou muito bonito e dá outra presença. O meu muro era sem reboque nem nada. Eles passaram a tinta e ficou muito bom”, disse uma das moradoras, Domingas Rodrigues Gomes, 69.

Os moradores aprovaram as novas cores do bairro. “Primeira vez que vejo um trabalho assim aqui. Está legal, pois dá uma aparência mais bonita. Muita gente está passando aqui na rua e tirando foto. Antigamente não tirava”, afirmou Joselito dos Santos, 51, soldador, que mora há 22 anos no Jardim Revista.

Sobre as autorizações para pintar os muros, Sacolinha disse que sempre fala com o morador proprietário do muro, que geralmente são seus vizinhos e amigos. “É mais no boca a boca, nada oficializado. Já no ponto de ônibus [que recebeu intervenção recentemente], tive que ir à Secretaria de Transportes de Suzano e pedir a autorização por ofício”, explicou.

“A melhor paga que recebi da população foi quando estava capinando atrás do ponto de ônibus e aí chegou um senhor e disse: ‘Você está de parabéns, viu. Muito obrigado!’. Eu capinando ali e uma lágrima escorreu. Caramba, isso é uma boa paga”, desabafou Sacolinha, que sonha com mais muros recheados de poesias e também com mais contistas e romancistas das quebradas assinando todos eles.

Saiba como ajudar e doar para o projeto

Você pode doar diretamente ao adquirir qualquer um dos livros do Sacolinha pela loja virtual neste link. Sacolinha tem sete livros publicados: “85 Letras e um Disparo” (2007); “Graduado em Marginalidade” (2009); “Estação Terminal” (2010); “Peripécias de Minha Infância” (2010); “Manteiga de Cacau” (2012); “Como a Água do Rio” (2013); e “Brechó, Meia-Noite e Fantasia” (2016), 50% do valor de cada título é revertido para as ações.

Já para doações de tinta (látex ou acrílico) e spray, além de qualquer doação em dinheiro, entrar em contato via e-mail sacolagraduado@gmail.com. Artistas interessados em colaborar espontaneamente podem contatar por e-mail também.

Tamiris Gomes é correspondente de Poá
tamirisgomes.mural@gmail.com

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