Morte de Daniel Marques, poeta da zona leste, comove artistas das periferias

Figura relevante da cena cultural periférica, o poeta Daniel Marques da Silva morreu na segunda-feira (31), aos 28 anos. Ele foi fundador e integrante do sarau O Que Dizem os Umbigos”, do Itaim Paulista, bairro onde morava no extremo leste de São Paulo.

Daniel era músico jongueiro e percussionista de maracatu. Na área acadêmica, pesquisou a cultura da periferia. Ainda não há confirmação médica sobre a causa da morte. O enterro foi realizado no Cemitério da Saudade, em São Miguel Paulista, na manhã desta quarta-feira (2).

A morte provocou comoção entre os artistas e coletivos culturais de toda a cidade. “Não temos palavras para expressar a dor da perda de nosso amigo e companheiro Daniel Marques. São muitas lembranças, trampos realizados juntos, momentos e energias trocadas. Que os amigos e familiares possam encontrar conforto nesse momento tão doído”, publicou em nota o Coletivo Periferia Invisível, em sua página numa rede social.

Daniel Marques da Silva morreu no último dia 31 de julho (Reprodução Facebook/Daniel Marques)
O poeta Daniel Marques da Silva morreu no último dia 31 de julho (Reprodução Facebook/Daniel Marques)

O Coletivo Cultural Ermelino Matarazzo também divulgou nota. “Hoje não iremos levantar nossa voz pra lutar pelos direitos que nos são negados por gestores e gestões (…) vá em paz, Daniel Marques”.

A Secretaria de Cultura também manifestou “solidariedade aos familiares e amigos neste momento tão difícil”, e ressaltou o papel do artista na ampliação das políticas culturais na zona leste.

A questão política sempre estave presente em suas obras; temas como acesso à moradia, violência e racismo eram frequentemente mencionados. O artista chegou a participar dos debates pela aprovação da Lei de Fomento às Periferias, e da ocupação da Funarte (Fundação Nacional das Artes) em 2010. Neste ano, esteve envolvido ativamente nas manifestações contra o congelamento de verbas municipais para a área da cultura.

Vários amigos de Daniel deixaram recados em sua página pessoal. A maioria relembrou poemas de sua autoria e vídeos de suas apresentações.

A correspondente da Agência Mural, Lívia Lima, de Artur Alvim, relembrou a reação ao vê-lo no programa “Manos e Minas”, da TV Cultura.  “Como fiquei feliz. Como me senti representada em sua fala, em sua imagem na TV, em sua mensagem sempre combativa. Seu sorriso e brilho no olhar eram inspiradores, suas palavras nos fortaleciam. Surpresa feliz ver na TV aquele que encontrei tantas vezes em saraus e ‘slams’ em toda a cidade.”

Ela se lembra de situações cotidianas, como a saída apressada de apresentações para garantir que não perdessem o último metrô para a zona leste. “São lembranças que guardarei desse poeta luz, que agora brilha lá no alto.”

“Quebrador de paradigmas, em voz alta, ele dizia que cada um poderia viver como quiser. Lutou contra injustiças, discriminações e preconceitos. A dor de perder um irmão da luta já bateu em nossa maloca algumas vezes e hoje não é diferente, nossa casa está mais triste, o artista de olhar brilhante nos deixa para fazer do céu teu palco”, disse Sheyla Melo, do coletivo Arte Maloqueira. 

Raphael Preto, 22, é correspondente da Vila Guilherme
raphaelpreto.mural@gmail.com

Comentários

  1. Tive a honra de participar junto com ele de inúmeras peças de teatro, principalmente das encenações da paixão de Cristo na Igreja Católica São Paulo Apostolo, localizada na Vila Aymoré, Itaim Paulista. Era um menino que na época tinha mais ou menos 16 anos, um ator excepcional, um gigante na arte de interpretar. Creio que ali foi o ínicio da sua trajetória na área da cultura. Que Deus o receba de braços abertos com a sua imensa bondade e que conforte os corações de todos os amigos e familiares.

  2. Que o grande poeta Daniel faça no eterno poesia e melodia…e de sua seara saiam lembranças sempre harmônicas que tragam paz e consciência ao povo que ele sempre defendeu… Aos seus companheiros, que o seu vulto inspire sempre a batalha diária ao qual vcs nunca sucumbiram…e que não esqueçam que é preciso endurecer, mas perder a ternura jamais…força a todos.

  3. Que o poeta Daniel faça no eterno poesia e melodia, e que seu vulto inspire seus companheiros a continuar a defesa intransigente e intensa da arte, da harmônia, do afeto desmedido e gratuito e do esclarecimento das consciências….Que seus companheiros continuem seu legado, que era de dar voz aos quais a voz sempre foi negada, e aos quais ele sempre trabalhou e viveu…Força a todos.

  4. “..neste ciclo sem fim/ o poeta vê passar/ diante de seus olhos/pelos raios multicoloridos/uma fantástica fábrica de sonhos”. RIP, caro Daniel.

  5. Cada vez que uma voz que se faz presente silencia é uma ameaça à nossa esperança, mas é também um estímulo para que outras vozes se levantem. Daniel continuará presente em nós, através de nossas vozes.

  6. Maravilhoso texto. Linda homenagem. Parabéns ao Uol por dar voz as periferias por um jovem que representa está periferia.

  7. Pena só saber da existência de representantes da cultura periférica em momentos como este. Onde está a visibilidade dos produtores e apreciadores da periferia no dia a dia da grande mídia? Lembro-me de um quadro do SPTV da Rede Globo que abordava os eventos de bairros afastados, no entanto sua suspensão não causou repercussão. A expressão cultural, principalmente a que nos faz refletir, parece sumir paulatinamente dos meios de comunicação.

  8. Tive a honra de participar com ele, em inúmeras peças de teatro na Igreja Católica São Paulo Apóstolo na Vila Aimoré/Itaim Paulista. Naquela época, ele era um jovem de mais ou menos uns 17 anos, um grande ator que emocionava a todos. Creio que ali foi o início da sua vida cultural. Que Deus o receba de braços abertos com a sua imensa misericórdia e que conforte os amigos e os seus familiares.

  9. Morreu de quê ? Morreu como ? Interessante não haver nenhuma notícia a respeito de como esse poeta morreu. Interessante …

  10. Fui professora do Daniel. Lembro da primeira peça que ele participou na escola. Sempre questionador, participativo… sorridente. Ahhh o sorriso do Daniel… É inacreditável!

  11. A causa da morte foi suicídio. E não tem adiantado nada fazer tabu com suicídio. Enquanto suicídio continua sendo tabu, as pessoas continuam se matando se ninguém fala sobre isso, a coisa só piora!

  12. Daremos continuidade ao seu trabalho, uniremos força pra isso. Pois o mundo continua girando, porém faltando uma peça que continua sendo brilhante é essencial! Pra sempre dentro de nós irmão Daniel❤

  13. Daniiiiii, me fez feliz, ao atravessar meu caminho, ainda no vocacional, depois na Luis Gonzaga, na Miguel Paulista, antes do psdbista a fechar…depois nas divertidas e inusitadas trombadas… sempre com muito amor…
    Tem gente que não podia partir! E tem tantas que deveriam sumirrrr!!!!!
    Será que deu tempo de dizer tudo sobre sua Itaim?
    Sobre seus amores?
    Sobre suas lutas?
    Escovou os dentes?
    (…)
    Meninooooo capitano, sei que tá na luz em busca de suas mais diversas Dulcinéias…
    Ouço seu gingado…

    Oro.
    Luz amigo…e aos q aqui ficaram paz e fé…

  14. Não entendi o porque de colocarem “artistas da periferia”. Precisa exemplificar isso? Artista não é artista?

    1. Ser artista na periferia de Sao Paulo, ser negro, LGBT, ser pobre.. é muito diferente de ser artista de novela da Globo. Ainda mais agora que todos os fomentos para a cultura, que já eram poucos, estão sendo cortados. Então sim, por isso e mais outros mil motivos, precisa exemplificar.

  15. Um artista brilhante com ótimas idéias, cheio de energia e sempre com seu lindo sorriso estampado no rosto trazendo sempre aquela alegria a todos nós. Sentiremos sua falta meu amigo, o Maracatu sentirá muito falta da sua dança e do seu carisma. Descanse em paz. Axé.
    – É tão estranho
    Os bons morrem jovens
    Assim parece ser
    Quando me lembro de você
    Que acabou indo embora
    Cedo demais.

  16. Fui Professor de História do Daniel e a melhor lembrança que guardo dele pra sempre é ele no palco da escola encenando no papel de Zumbi dos Palmares numa peça de teatro que montamos. É um estudante que me marcou na minha carreira docente e que sua imagem, sua voz e seu sorriso estará sempre presente em minha memória. Ele fará muita falta no cenário Cultural da nossa Zona Leste de São Paulo. Saudades!

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