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Festa das Cerejeiras é marcada por manifestações no Parque do Carmo

Por Blog

Nem tudo foram flores na tradicional Festa das Cerejeiras deste ano. Quem entrava no Parque do Carmo, na zona leste, pelo portão 1, no último domingo (6), notava uma movimentação diferente no caminho para o derradeiro dia da festa japonesa. Shows de reggae, batalhas de rimas e pintura de rosto destoavam da proposta do evento principal, chamando a atenção de quem passava.

A costureira Miriam Silva, 54, curiosa, parou no local para acompanhar o show, sem saber o que realmente estava acontecendo. “Estou gostando muito do som, está uma maravilha, mas até agora não ouvi ninguém dizer nada sobre o que está acontecendo”, conta, sorridente.

Alessandra Santos, 40, ao contrário, já sabia o que significavam as apresentações. “O pessoal está promovendo a arte aqui no Parque do Carmo. Eu acho isso fundamental para o desenvolvimento humano. Sinto muito orgulho de ver isso acontecer no meu bairro”, comenta.

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A ação estava sendo realizada pelo Movimento Ocuparte, coletivo cultural que atua há mais de dois anos no parque. Todos os meses, eles promovem saraus, oficinas e debates sobre temas como discriminação racial e regional, feminicídio, homofobia e tradições indígenas.

O coletivo aproveitou a visibilidade da 39ª Festa das Cerejeiras, que acontecia desde o dia 4 com apresentações e músicas destinadas à cultura japonesa, para promover o Ocupa Cerejeira, em protesto contra o sucateamento do parque.

“Ele está abandonado, com excesso de sujeira e mato, além da privatização, que vai acontecer em outros lugares. Aqui também estamos sem limpeza e manejo”, explica Mateus Muradás, 26, conselheiro do Parque do Carmo e membro do movimento que realizava a intervenção.

Desde novembro do ano passado, quando o contrato com a empresa responsável pela faxina foi encerrado, os 1.500.000 m² do segundo maior parque da cidade permanecem sem zeladoria. O local recebe diariamente 5.000 visitantes, que convivem com lixo exposto e falta de manutenção.

O cantor e compositor Ell Mizza, 36, que se apresentou na intervenção, acredita que o abandono seja proposital.

“Existe uma precarização dos itens públicos para que sejam feitas essas concessões. O movimento que acontece aqui está efervescendo em toda a região. Hoje, no Ocupa Cerejeiras, estamos utilizando de um evento da iniciativa privada para cobrar os nossos direitos. Acesso à cultura e lazer é um direito, não um privilégio”, reivindica.

Em nota, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente informa que “o processo licitatório dos parques para contratação de equipes de manejo e manutenção teve início em março, mas foi liberado somente há alguns dias pelo órgão fiscalizador [Tribunal de Contas do Município]. Dando prosseguimento aos trâmites legais, as equipes devem ser contratadas nos próximos dias”. Ainda segundo o órgão, a zeladoria está sendo realizada por meio de multirões voluntários de limpeza. A administração do Parque do Carmo não quis se pronunciar sobre a situação.

Durante a Festa das Cerejeiras, nem todos pareciam entender os cartazes pendurados no varal, tampouco estranhavam os ritmos que se diferenciavam das músicas típicas japonesas. Aos poucos, a mensagem era passada aos desavisados que assistiam às apresentações.

“Somos bloqueados para promover cultura. Esse festival está acontecendo a duras penas, depois de muita resistência. Mas a luta do movimento vai muito além da arte. Queremos melhorias para o nosso parque”, conta Muradás, um pouco antes de voltar para atrás do palco, onde cuidava dos mínimos detalhes para que a manifestação continuasse. O show não podia parar.

Larissa Darc, 20, é correspondente do Parque do Carmo
larissadarc.mural@gmail.com

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