B-boy leva break aos semáforos do Jaguaré e do Rio Pequeno

Por Blog

Parar no semáforo da avenida Escola Politécnica em frente à delegacia do 93º DP tem se tornado uma experiência diferente para motoristas da zona oeste de São Paulo que passam pelo cruzamento com a avenida Corifeu de Azevedo Marques.

No limite entre os bairros do Rio Pequeno e do Jaguaré, durante os 50 segundos que duram o tempo do sinal vermelho, os ouvidos são capturados por batidas que ecoam de uma caixa de som colocada ao lado da rua, levando a atenção a um garoto dançando break.

Quem traz essa arte ao farol da Politécnica é Wendel Almeida Cardoso, o b-boy Kakaroto, 24, que há dois anos faz apresentações no local.

Quando não está acompanhado de algum amigo, ele se mantém alerta, e quando percebe que há carros o suficiente, espera o sinal ficar vermelho, liga sua caixa de som, aumenta o volume, corre e manda um mortal em direção ao centro da faixa de pedestres.

Em seguida, faz movimentos de power move (um estilo que requer rotações e giros do corpo durante a coreografia). A apresentação dura cerca de 30 segundos. Depois, agradece como um mestre de cerimônias e caminha em direção ao corredor de veículos. Algumas janelas são abertas, outras não.

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“Dia bom é no começo do mês”, comenta. As datas que mais rendem são nos dias 5, 6 e 7, que representam normalmente o quinto dia útil do mês, e também nos feriados. “Nessas datas dá para tirar uma moeda legal, já nos outros dias tem que suar, se não (…)”, completa.

Kakaroto, sobrenome do personagem Goku do desenho “Dragon Ball”, começou bem antes das apresentações na zona oeste. Sua história no mundo da dança teve início ainda no colégio, quando fazia passos no pátio da escola.

Um professor, que dava aula de break, o viu e o convidou para participar de um grupo. Desde então, ele não parou mais, mesmo com a reprovação de seu pai. “Ele não conhecia meu professor, queria saber quem era, tinha medo de ser coisa errada”, lembra.

Neste período, Wendel conseguiu conciliar empregos, como o de ajudante geral no McDonald’s, enquanto participava de campeonatos de dança.

Foi em um desses torneios que conheceu André Ronaldo da Silva, o Deko, 26, que é b-boy e mora no Jaguaré também. Da aproximação, que dura até hoje, ele também começou a participar um pouco mais do movimento hip-hop do bairro.

Nessa época, ele conheceu o Favels, grupo de grafite que sobrevive desde os anos 1990 e hoje toma conta do Canto da Arte, local sustentado por moradores da comunidade, que organiza aulas de capoeira e eventos de grafite e de break na região. Em julho, eles realizaram o União das Favelas, que reuniu grafiteiros e b-boys da cidade inteira no CEU Jaguaré.

Um dos organizadores foi Deko, que pensa em viver o dia a dia do hip-hop por muito tempo. “Eu quero dançar até minha última respiração”. Deko, além de dançar, é grafiteiro e começou a tatuar.

Kakaroto também deseja ainda muitos anos de hip-hop, e espera pagar aluguel com o dinheiro das aulas de dança e não mais do que ganha no farol. Porém, ele ainda quer superar a timidez e estudar para ter condições de ensinar novos B-Boys.

“No CEU consigo dar aulas, o problema é que agora não estou preparado”.

Guilherme Hink Rodrigues é correspondente do Jaguaré e Rio Pequeno
guilhermehink.mural@gmail.com