Aos 72 anos, Quintino luta por parque municipal na Brasilândia

Por Blog

“Para que serve uma árvore?”. O questionamento é do mineiro Quintino José Viana, 72. Militante de causas relacionadas ao meio ambiente, ele usou a frase em uma reunião da prefeitura regional de seu bairro, a Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo.

Criador do movimento Ousadia Popular que conta com outros 12 participantes, ele defende as nascentes e matas da Serra da Cantareira e partes da Mata Atlântica, e é figura frequente em reuniões das prefeituras regionais, encontros e passeatas no distrito.

“A Brasilândia precisa de áreas de lazer para o povo, as crianças necessitam de incentivo”, prossegue. “Muitos jovens entram no mundo da criminalidade por falta de oportunidade de lazer e educação”.

Aposentado e dono de um bar, ele está em São Paulo há 47 anos, e aproveita o tempo livre para divulgar sua causa nas redes sociais. Seu perfil no Facebook possui mais de mil contatos que vão de moradores da região até secretários da prefeitura. Ali, recebe cobranças constantemente por meio de mensagens.

Quintino ainda faz vídeos e fotografias com o celular sobre sua principal causa: a implantação do Parque Municipal de Vila Brasilândia. A implantação da unidade ainda não tem data para sair e está prevista uma plenária na Câmara Municipal, em que os ativistas pretendem cobrar pela implantação do projeto que abrange 529.000 m².

Quintino diz que começou atuação após ter recebido um ‘chamado’ (Foto: Ronaldo Lages/Folhapress)

CHAMADO

De calça camuflada, camisetas quase sempre da cor verde, chapéu que lhe ampara do sol e riso fácil, Quintino tem fala suave e aparenta viver desinteressado da correria  da capital.

Ainda em sua terra natal, Governador Valadares (MG), ele trabalhou em muitas profissões: foi boiadeiro, servente de pedreiro, e como funcionário de um hotel conta que chegou a conhecer pessoalmente o cantor Roberto Carlos, que lhe oferecia “gordas” caixinhas, uma delas por ter ido comprar fumo para o cachimbo do Rei.

Sobre o começo de sua atuação pelo meio ambiente, o mineiro cita a religião e diz ter recebido um chamado. Conta que ao abandonar a casa da mãe ainda bem jovem, recebeu um sinal divino em uma estrada.

Ele olhou para todos os lados e não viu ninguém, até que ouviu uma voz lhe pedir para levantar a cabeça e olhar para cima. Ao ver o céu se abrir com matas, pássaros e riachos, diz ter ouvido  a voz murmurar: “Siga agora seu caminho e seja feliz”, o que interpretou como uma mensagem para cuidar da natureza.

Ao ser questionado por quem não entende como um homem de mais de 70 anos ainda se preocupa com a militância em vez de descansar, ele rebate, também com tom religioso. “Deus quando fez o mundo, não pensou só nele, pensou em nós. Temos que pensar nas gerações futuras”.

Apesar das incertezas sobre a implantação do novo parque, após duas décadas de reivindicação, Quintino não pretende deixar de lado a atuação, apesar de muitos terem desistido ao longo do caminho. “Quanto mais vou pra cima, mais fico animado, principalmente quando as pessoas elogiam. Aí vejo que o trabalho está indo pra frente de alguma forma”, diz.

“Quanto mais luto, mais quero continuar”, conclui.

Ronaldo Lages é correspondente de Vila Brasilândia

ronaldolages.mural@gmail.com