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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Aos domingos, mulheres bolivianas se reúnem para jogar futebol na praça do Recanto Verde

Por Blog

Aos domingos, por volta das 7h da manhã, a praça do Recanto Verde, na zona norte, é o ponto de encontro para um grupo de mulheres bolivianas. Faça chuva ou faça sol, elas chegam ao local para mais uma partida de futebol.

Com os filhos no colo ou no carrinho, as mulheres colocam o meião, prendem os cabelos e ajeitam as camisas. Um pequeno chora, mas logo é acalmado pelo time reserva, que ajuda a tomar conta das crianças durante o jogo.

A rotina se repete há pelo menos um ano. “Já participamos de vários campeonatos de futebol e ganhamos dois. Meu marido nos ajuda, mas ele só nos inscreve. Aqui é a gente que sabe quem joga e quem não joga”, explica com sotaque castelhano a costureira Diosinia Paero, 31, que está há oito anos no Brasil.

Cada time é formado por cinco mulheres de várias idades, de 15 até 38 anos. A regra do treino é: quem fizer dois gols ganha e joga com outro time.

“Jogamos futebol desde pequenas na Bolívia. Lá é normal. Não entendo porque aqui no Brasil as meninas não jogam. Nas aulas de educação física da escola em que eu estudava [em São Paulo], eu tinha que jogar bola com os meninos. As garotas só praticavam vôlei”, diz a costureira Erika Joseline Villasan, 20.

Conforme explicam as participantes, os campeonatos dominicais são voltados apenas para mulheres bolivianas. As últimas disputas, segundo elas, foram organizadas por mercados e fábricas do bairro. “Antes a gente treinava na quadra de uma indústria aqui perto, mas como há um ano não pode mais, agora os treinos são aqui. O que não pode é parar”, conta Dionisia.

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A maioria das jogadoras que participam do campeonato são casadas. Enquanto elas jogam na praça do Recanto Verde, os maridos também se reúnem para uma partida de futebol, mas sempre em outro local. “Cada um joga com seus amigos, eles pra lá e a gente pra cá. Ninguém fala que não sabemos jogar bola ou que jogamos mal, fazemos isso desde criança, é normal e natural. Todo mundo é igual no futebol”, afirma Erika.

Há 16 anos no Brasil, ela ainda observa que as mulheres bolivianas não se preocupam tanto com a aparência quanto as brasileiras, ressaltando que a tradição cultural dos países é muito diferente. “Percebo que as brasileiras usam muita maquiagem, e acho que isso envelhece. Elas têm medo de jogar futebol porque podem se machucar e ficar com marcas.”

“Não gostamos de usar tintura no rosto e tampouco nos preocupamos em ficar com arranhões nas pernas. O que importa é ser feliz e fazer o que gosta”, completa Erika, que, assim como as outras mulheres, sempre aproveita o dia de folga das oficinas de costura para jogar futebol.

A maioria das jogadoras não fala bem o português, seja por dificuldade ou por timidez. As que falam melhor ajudam na tradução. No tempo de descanso entre uma partida e outra, Dionisia se sente mais segura com a conversa e começa a mostrar fotos de seus parentes que ficaram em Sucre, capital constitucional da Bolívia.

“Nossa vida lá era muito difícil, eu não tinha nem guarda-roupa. As roupas eram penduradas no varal no meio casa. Aqui posso dizer que vivo no luxo. Lá a gente trabalhava na plantação de arroz. Vim pra cá para ter um salário melhor, mas sinto falta da minha família que está toda lá”, emociona-se.

Priscila Gomes é correspondente de Vila Zilda
priscilagomes.mural@gmail.com

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