Morador faz castelo com sobras de materiais no Tremembé

Agência Mural

“Tio, quero entrar na piscina”. O pedido feito por uma criança no Jardim Ataliba Leonel, na zona norte de São Paulo, é comum nos dias de verão na frente do número 250 da rua Diva Rodrigues de Oliveira, onde está uma casa diferente.

“Sua mãe autorizou? Cadê ela? Cadê os outros meninos?”, questiona Geraldo dos Santos Matos, 62, dono da propriedade. Ao ver que a responsável pelos garotos está por perto, ele dá o aval. “Vou deixar, mas espera só uns minutinhos que tô contando minha história pra moça aqui”.

A piscina faz parte de um sonho que Geraldo tem desde criança: construir um castelo. Apaixonado por esse tipo de obra, ele desenhou um esboço do projeto quando tinha 14 anos, em 1969, e o guardou. Desde os anos 1980, começou a fazer a ideia tomar forma na sua casa.

“Eu tinha comigo que iria realizar esse meu desejo. Não importa quanto tempo iria levar ou o quanto eu teria que trabalhar”, conta o morador do bairro situado no distrito do Tremembé.

Pai de quatro filhos, natural da cidade de Rio Novo (MG), Geraldo veio para São Paulo em 1976, antes de completar 20 anos, ao receber uma proposta para trabalhar em uma empresa de terraplanagem. Ele ficou pouco tempo no local e começou a fazer serviços de pedreiro ou consertando eletrodomésticos. “Nunca mais tive patrão”.

Em 1983, ele se mudou para a região e comprou um terreno, onde construiu inicialmente um barraco. A situação mudou quando ele foi convidado a trabalhar na demolição de cinco casas e os materiais destruídos serviram para ajudar na empreitada.

A construção nunca parou. Geraldo conta que fez tudo sozinho, desde a fundação que tem mais de 12 metros de profundidade até os azulejos que são milimetricamente assentados iguais. “Só peço ajuda quando é para encher laje, porque é pesado. Essas vigas fiz sozinho, até a forma”.

O castelo chama atenção do bairro inteiro. São 16 metros de altura. De cada lado, há um leão feito de cimento e com peso de 200 quilos cada um. Há ainda um poço no quintal com 13 metros de profundidade. Ele contabiliza que usou sete mil sacos de cimento e seis toneladas de ferro, oito caminhões de areia.

O mineiro conta que tudo que via pela rua pegava para levar para sua construção como vidro e ferro. “Semana passada achei esses vidros e estão ótimos para fazer outra parte lá de cima do telhado”, planeja.

“Adoro compartilhar com os vizinhos. Alegria é ver essa criançada se esbaldando nessa piscina. Ontem estava calor e eles ficaram até oito da noite”, comenta.

FESTAS E ANTIGUIDADES

A obra tornou Geraldo uma pessoa conhecida na região e o espaço é usado para festas.  “Minha família aluga o castelo para festas também. Ele é muito gente boa. Moro aqui há 23 anos. Ele tinha um chafariz na calçada e todo mundo brincava, era divertido, mas aí teve que tirar”, lembra o porteiro Sérgio Santos, 23.

“Ele é um bom vizinho, não tenho do que reclamar. Quando tem festas muitas pessoas reclamam do barulho, mas outras participam também”, afirma o ajudante geral Jonatan Silva, 20.

As obras ainda não acabaram. Logo depois da garagem, fica a piscina e ao lado dois banheiros quase prontos. Ao fundo, em construção, uma hidro e uma piscina pequena para crianças. Com três andares, o castelo tem três quartos, uma sala, uma cozinha e três banheiros.

Junto aos trabalhos há algumas antiguidades. Na garagem, uma Kombi de 1976  é guardada com os acessórios originais. “Esse foi meu primeiro carro e nunca vou vender, me ajudou muito. Várias pessoas já quiseram comprar, mas essa daí não tem preço”. Ele ainda comprou um piano que fica perto da piscina.

“Acho que em dois anos eu termino essa construção, falta muito pouco. Ainda bem que tenho muito material aqui que achei na rua, então já tenho muita coisa”.

No desenho original, Geraldo tinha colocado que o castelo teria o número 250 e coincidência do destino, sua casa é do mesmo número. “Sempre estive com o desenho do castelo comigo eu já tinha tudo em mente”, diz  emocionado, enquanto segura o primeiro tijolo que conseguiu para o projeto. Trazido há 35 anos.

Priscila Gomes é correspondente de Vila Zilda
priscilagomes.mural@gmail.com

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