Primeiro terreiro de candomblé de SP se torna patrimônio imaterial da humanidade

Em 2014, o mais antigo terreiro de candomblé do estado de São Paulo, o Terreiro de Santa Bárbara, na Vila Brasilândia, zona norte da capital paulista, recebeu o título de patrimônio imaterial histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e caminha para também ser considerado patrimônio histórico.

O título de patrimônio imaterial atribuído ao terreiro se relaciona a saberes cultivados, práticas e vivências religiosas. Já a certificação como patrimônio histórico, ainda não reconhecida, visa suas dependências físicas e paisagísticas.

Há quem diga que Julita Lima Albuquerque, fundadora do Terreiro de Santa Bárbara, viveu uma vida longeva e faleceu em 2004 ultrapassando os 100 anos de idade na Vila Brasilândia, local em que passou maior parte de seus dias.

Como era conhecida em seu meio, “Mãe Manaundê”, nascida em Ilhéus (BA) e filha de ex-escravos, foi de um tempo onde registro em cartório era algo incomum, daí a incerteza sobre sua idade.

Ainda na juventude teve que se submeter a um casamento arranjado. Para fugir do marido violento, partiu para o interior do Sergipe, onde se casou pela segunda vez e teve 24 filhos, em sua maioria adotivos.

Veio para São Paulo e fixou residência em outros bairros, ainda na década de 40. Mais tarde, em 1965, fundou o Terreiro de Candomblé Santa Bárbara [equivalente a iansã no candomblé], antiga tradição dos escravos de substituir orixás com nomes católicos, uma forma de escapar da repressão e do preconceito social ainda vigente naquele período.

Placa de reconhecimento do Terreiro de Candomblé Santa Bárbara como patrimônio imaterial de São Paulo (Ronaldo Lages/Folhapress/ Agência Mural)

Morador desde criança de Vila Brasilândia, Rodrigo de Souza Silva, 19, acredita que o reconhecimento histórico do local é um avanço para a região, pois fará jovens como ele a conhecer os primórdios de formação do bairro.

“Acho importante se isso for corretamente administrado e que todos possam ter acesso ao espaço, contando suas origens e culturas do ambiente. Tem muito que mostrar ao bairro”, ressalta Silva.

Já no caso da aposentada Maria José Horácio dos Santos, 77, que foi amiga pessoal de Julita há mais de 50 anos, as homenagens são bem-vindas por conta de seu engajamento.

“Quando nós chegamos aqui ela comprou esse terreno. A rua era só mato, sem nenhum comércio. Vim para São Paulo por causa dela, vivíamos como uma família. Ela fez muita caridade”, relembra Dona Maria José.

LEGADO

O empresário e neto de Julita, Rubens Albuquerque Lima, 44, relata com brilho nos olhos o quanto sua vó defendia e acreditava em sua causa.

“Como neto dela, vejo que minha avó lutava praticamente sozinha, apenas um ou outro a ajudava. Ela era guerreira. Fomos criados por ela, e hoje temos noção do quanto é necessário deixar esse legado para o bairro”, diz.

Em 2016, surgiu a PL 231/2016, que pretende mudar o nome da rua onde está o terreiro, hoje rua Ruiva, para Manaundê, em homenagem à fundadora.

Entretanto, tal aprovação é incerta, já que, segundo Lima, ainda existe disputa ideológica nos bastidores políticos por conta de grupos contrários que não aceitam a mudança.

“Tem um certo preconceito por ser uma sacerdotisa de matriz africana, mas a rua ao lado tem o nome de um reverendo católico. Se o projeto for aprovado, a rua se chamará Manaundê, e mesmo assim, não haverá menção de quem foi ela”, ressalta.

INTOLERÂNCIA

Nos últimos anos, diversos terreiros têm sido invadidos e destruídos por criminosos principalmente em cidades como Rio de Janeiro e Salvador. Embora o Santa Bárbara nunca tenha sofrido nenhuma violência, já recebeu carta anônima com ameaças. É o que diz a mãe-de-santo Pulquéria Albuquerque Lima, 60, herdeira do terreiro.

“Recebemos uma ameaça por carta dizendo que iriam invadir e derrubar tudo, mas não aconteceu nada. Sou privilegiada, aqui nunca ninguém mexeu, se invadir eu ponho pra fora”, finaliza, com bom humor, Pulquéria.

Ronaldo Lages é correspondente de Vila Brasilândia
ronaldolages.mural@gmail.com

Comentários

  1. O problema são os evangélicos, eles que atacam terreiros. Os católicos sempre conviveram bem com outras religiões aqui no Brasil.
    Os evangélicos precisam parar de ser extremistas e olhar para além do próprio umbigo.

  2. Esta notícia é maravilhosa e muito bem vinda. Nosso estado devia uma ação como esta à população afrodescendente.
    Temos um processo no Ipham tramitando para o reconhecimento da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos do Largo do Paissandú. Oxalá que tenhamos sucesso lá também, para provar e mostrar a presença marcante dos negros e sua cultura na cidade de São Paulo.
    Parabéns!

  3. Cara que pancada na moleira desses idiotas que se acreditam crentes sem nem ao menos saber no que creem. Constroem suas seitas criminalizando religiões com foco principal nos cultos de origem africana por acreditarem que a simplicidade dos fiéis de tais cultos facilita a cooptação dos mesmos para suas seitas gananciosas e sempre visando o tal dízimo para sustentar o fausto, pompa e circunstância de seus “credos” sem qualquer embasamento.
    Ora, os faustosos templos que erguem não são sequer cogitados para virem a compor algo que se assemelhe a patrimônio oficialmente reconhecido, até porque um terreiro de Candomblé ou Umbanda é mundialmente visto como templo religioso ao contrario de edificações de seita que pouco ou nada representam no contexto do patrimônio mundial.

  4. PRECISAMOS..LUTAR..PELO..DEREiTO..DOS..Babalaos…&babaloeixas..A..CAPELANIA..MILITAR….E…GATANTIR..A..NB9ORMA..DE..EFICACIA..PLENA..DA..CARTA..MAGNA…AOS..DE..TRLIGIÕES…DE..MARIZES..AFRICANAS…..PORQUE..A..NOSSA..CARTA..MAGNA..DIGNIFICA..ESTE..DIREITO..A..ESTES..SACERDOTES..PASTORES..E..PADRES..

  5. Acho fabuloso finalmente nossa fé ter um lugar reconhecido.
    Sou do Candomblé a mais de 40 anos
    Amo minha fé e grata por tantas maravilhas e a oportunidade de aprender a cada dia pois nosso aprendizado continua além desta vida !!!
    Parabéns!!

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