Aos 20 anos, escola de samba do Grajaú quer ir além do boca a boca

Priscila Pacheco

Maria José Santos, 55, saía de casa no Jardim Varginha, na zona sul da capital paulista, quando escutou a vizinha falar sobre uma escola de samba no Grajaú, distrito do qual Varginha faz parte. “Apaixonada por samba”, como faz questão de dizer, a autônoma ficou curiosa e buscou por mais informações. Passaram-se dez anos desde o primeiro desfile na Estrela do Terceiro Milênio, escola de samba que pertence ao Grupo de Acesso 2. Atualmente, Maria é coordenadora-geral da ala das baianas.

Criada em 1998, a escola desfilou pela primeira vez no Carnaval de São Paulo quatro anos depois. “Sempre gostei muito de samba. É aqui que extravaso minha alegria, minha tristeza”, comenta Maria José.

João Pedro Nery, 18, morador do Jardim Angelina, começou a desfilar aos 13. Chegou à Estrela do Terceiro Milênio a convite de sua madrinha. “Desfilar para mim significa alegria e curtição. Para mim é importante ter uma escola de samba no Grajaú porque a gente tem a chance de ir para a avenida, não ver só pela televisão”, confidencia o rapaz, emocionado ao recordar sua primeira apresentação no Sambódromo do Anhembi.

A Estrela do Terceiro Milênio fica perto do Centro Cultural Grajaú, no Parque América. Desde 2011, possui um galpão perto do sambódromo para guardar os carros alegóricos. “A gente sofria para levar os carros alegóricos daqui até o Anhembi”, diz o diretor de bateria Jorge Tadeu de França, 33, conhecido como Jorginho.

Vindo do Jardim Progresso, bairro próximo ao Grajaú, Jorginho integra a escola há 15 anos, quando os carros eram construídos na beira da represa Billings e os participantes desenhavam e confeccionavam as próprias fantasias.

Jorginho também lamenta o preconceito sofrido pelo fato de a escola estar localizada na periferia. “Tem gente que diz: ‘Vamo lá na Terceiro Milênio?’. E o outro responde: ‘Mas lá é muito longe'”. Além disso, o baterista reclama por já ter ouvido comentários de que na zona sul não existe samba.

“Temos uma história de samba. Temos grandes sambistas daqui que foram para fora. Temos várias rodas de samba. O Pagode da 27, o Samba da Praça, no Grajaú; o Quem samba fica [no Socorro]; o Samba da Laje, na Vila Santa Catarina; a Oficina do Samba, no Jardim Primavera.”

O carnavalesco Murilo Lobo, 52, chegou à escola neste ano. Com experiência do Grupo Especial, como a Unidos do Peruche, relata que a maioria dos integrantes é da região. Ainda assim, grande parte da população local desconhece a existência da Estrela do Terceiro Milênio. “Aos poucos, vamos expandir”, comenta, após dizer que veio para preparar melhor a turma para a competição e que o sonho da escola é entrar no Grupo Especial.

O desfile da Estrela do Terceiro Milênio acontece na próxima segunda-feira (12), no Sambódromo do Anhembi, em Santana, na zona norte. Aproximadamente 1.300 pessoas devem entrar na avenida.

A protagonista do enredo é a coruja, símbolo da escola. O Grajaú é citado no refrão da música: “Uma estrela me guia no céu da cidade. Sou samba, sou raça, chegou zona sul. Teu brilho é encanto, paixão de verdade. És a soberana do meu Grajaú”, diz a letra.

Priscila Pacheco é correspondente do Grajaú
priscilapacheco.mural@gmail.com

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