No Jardim Helena, psicóloga atende mais de 2.000 pessoas voluntariamente

Sheyla Melo

Há 18 anos um trabalho voluntário feito por uma moradora do Jardim Helena, em São Miguel Paulista, no extremo leste da capital paulista, vem ajudando moradores locais e até de bairros distantes. 

Maria Aparecida Paraízo, 61, mais conhecida como Cida Paraízo, dedica um dia da semana para realizar atendimentos psicólogos gratuitos.

Mesmo tendo trabalhado na supervisão de uma creche e circulado em diversos setores da assistência social, Cida nunca deixou de atender pessoas que não tinham condições de pagar por uma consulta, além daqueles que precisavam de tratamentos urgentes e dependiam da fila do SUS (Sistema Único de Saúde).

A primeira paciente atendida foi a pedido de um padre da comunidade Santo Antônio. Sem consultório próprio, uma sala nos fundos da igreja foi aberta para Cida Paraízo.

“Eu atendo pessoas de todas as religiões, sem discriminação”, enfatiza a psicóloga, que diz ter realizado mais de 2.000 atendimentos voluntários ao longo dos últimos cinco anos.

“Hoje essa menina [a primeira paciente atendida] tem 20 e poucos anos, eu tenho tanto orgulho de ver. O sonho dela era aprender a ler”, relembra Cida, que foi até a escola da garota conversar sobre ela com a direção.

“Ela fazia desenhos em sequência como um gibi, tinha memória visual”, conta a psicóloga. A mãe da menina doou na época uma mesinha e cadeiras para o consultório.

Mesinha e cadeira ganhadas por Cida após atender uma criança, gratuitamente, no Jardim Helena (Sheyla Melo/ Agência Mural/Folhapress)

A mãe faleceu três anos após o início do tratamento, mas até lá a menina já caminhava sozinha para os atendimentos, frequentava o catecismo, cantava no coral, já tinha certa independência. “Ela tinha uma leve paralisia cerebral, e a escola a tratava como uma retardada”, conta.

Cida relata que precisou ficar embaixo da mesinha, que funcionava como uma espécie de casinha, para atender uma menina que não falava. “Fiquei seis meses brincando de mamãe e filhinha. Foi assim que descobri que ela não falava por ter visto a mãe queimar o próprio corpo”.

No consultório improvisado, Cida faz encaminhamentos e realiza atendimentos individuais. “Ficar só eu e a criança é mais confortável”, revela. A psicóloga evita atendimentos em grupo, a não ser para passeios.

“Já fomos a pé para o Parque Raul Seixas. Antes eu liguei, expliquei meu trabalho e, quando chegamos lá, tinha piscina de bolinha, pula-pula e lanches que o parque preparou para as crianças. Elas adoraram.”

“É um trabalho de formiguinha, mas já evitei muitos acolhimentos de crianças e adolescentes, prisões e até suicídio”, revela. No mesmo atendimento, enquanto ela deixa a criança brincando, orienta também a família.

Cida alerta a importância do atendimento psicológico acontecer na infância, quando a família ou a escola notarem a necessidade, além do cuidado com a “endemonização” do paciente, ou seja, a confusão do sofrimento mental como algo relacionado à religião.

Após quase duas décadas de trabalho voluntário, a psicóloga revela que não se assusta mais como antes ao ser procurada por um pastor durante a missa para atender uma “irmãzinha”. “Eu atendo a irmã, a mãe e o pai”, brinca Cida com o duplo sentido.

Sheyla Melo é correspondente de Guaianases
sheylamelo.mural@gmail.com

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