Jovens do Alto Tietê criam produtora musical independente para a periferia

Lucas Landin

Para quebrar estereótipos e dar visibilidade à música das periferias, quatro jovens da Grande São Paulo se juntaram para criar uma produtora musical independente. Todos moram entre as cidades de Poá, Suzano e Ferraz de Vasconcelos, na área leste da região metropolitana.

A ideia surgiu do interesse do operário Brenno Sajermann, o Mito, 20, pela música periférica. Foram nos festivais de rap da região, conhecidos como batalhas, que o jovem conheceu o MC de trap (subgênero do rap e hip-hop) Gabriel Pinheiro, 19, o Dakazza, e o estudante de letras Lucas Simas, 21, o produtor musical do selo.

Por fim se somou ao grupo Joana Sousa, 20, amiga de Brenno desde quando ambos cursavam o ensino técnico em química em Suzano. Atualmente estudando moda, Joana se tornou a designer da produtora.

“O rap ainda é muito estigmatizado na sociedade como algo ruim, coisa de vagabundo. Queremos provar que não é bem assim”, diz Brenno.

Contudo, a produtora não visa apenas o rap, mas também artistas da periferia que toquem outros gêneros, como rock e reggae. “Queremos divulgar os sons da quebrada pois sentimos que há uma certa lacuna nesse quesito”, conta Simas.

A identidade periférica acabou também influenciando na escolha do nome da produtora, batizada de PAESE, em alusão ao programa acionado pelo Governo do Estado quando há falhas nos trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Da esquerda para a direita: Joana, Dakazza, Mito e Simas (Divulgação/PAESE)

“Ficamos vários dias pensando em um nome. Aí que nos demos conta que todos nós já havíamos sofrido com as constantes panes da CPTM. Por isso é PAESE. Certamente quem é de quebrada vai se identificar”, explica Joana.

A produtora ainda não possui uma estrutura física. As produções instrumentais são feitas por Simas em seu notebook, enquanto as gravações de voz são realizadas em um estúdio de Suzano e em uma escola de música em Poá. Este último também funciona como espécie de “QG” do grupo.

“No momento, trabalhamos em um home studio, que consiste no notebook do Simas (custou R$ 1200, usado), uma interface de som simples (R$ 300) e um microfone condensador (R$ 150 reais, usado)”, explica Joana. Com exceção do notebook, que também é utilizado para fins pessoais, os outros itens foram pagos por um rateio entre os quatro.

Em 28 de março será lançado o primeiro álbum do selo, Mitologia, de autoria de Brenno. Das nove faixas do disco, oito contam com participações de outros artistas da região. “Na única faixa do cd que gravei solo, até chamei um coral de Suzano para ajudar com o refrão”.

A partir do lançamento, a ideia é passar a oferecer a produção de instrumentais, além de serviços de mixagem e masterizações. Também pretendem fazer a produção de mixtapes gratuitos para artistas escolhidos em batalhas de rap pelo Alto Tietê.

Os formatos online serão a principal plataforma de divulgação e distribuição da PAESE, em plataformas de streaming como Youtube, Spotify, Deezer, Tidal, entre outros.

DUPLA ROTINA

Para os jovens, o maior desafio é conciliar o trabalho na produtora com a pesada rotina de trabalho e estudos. Lucas cursa letras na USP e dá aulas. Gabriel trabalha numa farmácia em Ferraz de Vasconcelos. Já Brenno cursa química em Mogi das Cruzes e trabalha numa indústria em Poá.

“É muito cansativo. E agora, com o lançamento do selo, vamos trabalhar ainda mais. Mas o sonho é que um dia possamos viver da música. Quem sabe?”, conta Brenno.

Lucas Landin é correspondente de Poá, na Grande São Paulo
lucaslandin.mural@gmail.com

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