Escritores e poetas mostram como surgiu a literatura periférica em SP

Lucas Veloso

“O coro / dos cachorros noturnos / não incomoda / os humanos / que dormem / pra fazerem cachorradas / durante o dia / auuuuuu auuuuuu auuuuuu/”. Essa foi uma das poesias espalhadas por Robinson Padial, o Binho, 51, nas ruas de São Paulo em meados dos anos 90.

As intervenções aconteciam na madrugada, quando Binho, que tinha um bar no Campo Limpo, na zona sul da capital paulista, fechava o comércio e saía com alguns amigos. E “com os bêbados que sobravam ali”, afirma o poeta, para recolher as placas dos políticos nos postes.

Com o material em casa, pintava, escrevia e devolvia nos mesmos lugares. “A gente queria falar, devolver poesia à cidade”.

Foi a partir dessas manifestações nas periferias, conhecida como Postesia, que o Sesc Belenzinho, na zona leste, promoveu, na última quinta-feira (21), um debate para discutir duas décadas da literatura periférica.

Pesquisadora da produção cultural periférica em São Paulo, Érica Peçanha, 37, começa a conversa abordando a efervescência cultural nas periferias nos anos 2000.

Segundo ela, nesse período, houve aumento da literatura produzida e de práticas literárias, como selos editoriais, e o surgimento de bibliotecas comunitárias. Esses poetas e escritores, em sua maioria, eram negros, sem ensino superior e que valorizam a cultura popular.

Os saraus também se tornavam mais populares nas periferias, como o Elo da Corrente, nascido em Pirituba, na zona norte.

A cofundadora Raquel Almeida, 28, se interessou pela leitura com a mãe, que colecionava cordel e quadrinhos. Na escola, pegava livros emprestados e os levava para casa, para que a família pudesse ter acesso à leitura. A criação do ‘Elo’ aconteceu “pela vontade de falar”.

“A gente está morrendo, mas queríamos escrever e mostrar que podíamos fazer outras coisas, não só morrer. Queríamos publicar livro! No primeiro VAI [Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, da Prefeitura de São Paulo], nem colocamos dinheiro para condução. A gente queria escrever para não enlouquecer”, comenta.

Da zona leste, a poeta Mariana Felix, 32, que faz parte dos slams (batalha de poesias), fala da importância das mulheres nesses 20 anos de literatura e como é significativo lembrá-las na história dos movimentos.

“Minhas referências são as mulheres. Adoro romance. Amava Clarice [Lispector]. Sou uma nerd da literatura. É bom lembrar as mulheres que vieram antes, é bom lembrar as vivas. Mas essencial é não esquecer as mortas também”, pontua a escritora, que já lançou dois livros.

O predomínio da poesia nos movimentos nascidos nos rincões da cidade foi outro assunto no debate.

Da esq. para dir., A slammer Mariana Feliz, a escritora Raquel Almeida e o poeta Binho (Lucas Veloso/ Agência Mural/ Folhapress)

Rachel explica os motivos: “por ser curta, rimada, fácil de aprender”. Binho acredita que o poder da poesia está na rapidez. “Era um drible”, compara. Já na opinião de Mariana, a falta de coragem de usar outros formatos foi o que permitiu que a poesia ocupasse maior espaço. “Ela deu certo porque deu muito certo”, resume.

O encontro termina por volta das 22h. Érica, a mediadora, resume a conversa, lembra que os movimentos culturais são compostos de divergências, o que, reforça ela, não diminui a importância das manifestações.

No fim, parece que as duas décadas, pensadas ali, podiam ter sido resumidas em outra poesia “Uma andorinha só / não faz verão / mas pode acordar / o bando todo/”.

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases
lucasveloso.mural@gmail.com

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