Livro de feminista italiana dialoga com vida nas periferias

Por Sheyla Melo

É possível imaginar os caminhos que um livro faz até chegar às mãos do leitor. No caso do Calibā e a Bruxa, da escritora italiana Silva Federici, a jornada foi um pouco maior para alcançar mulheres das periferias. O livro foi lançado 2004 nos EUA e para traduzi-lo do inglês houve muito trabalho voluntário e união entre mulheres do Coletivo Feminista Sycorax.

O lançamento da tradução em PDF aconteceu em 2016, em um evento em uma escola ocupada em Pinheiros. No ano passado, transformada em livro, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo e da editora Elefante, a obra foi lançada na Cidade Tiradentes e no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Neste ano, o grupo se organiza para um circuito de oficinas e palestras sobre o tema. A primeira delas será em Guaianases, na zona leste de São Paulo, no próximo sábado, 7. O Coletivo Sycorax conversou com a equipe da Agência Mural sobre o projeto.

O texto do livro analisa a história da caça às bruxas na Europa no período da Idade Média e faz uma relação com o capitalismo. Aponta estruturas e padrões que permanecem, como a exploração do trabalho, estratégias para impedir acesso à terra e a perseguição às mulheres.

A fotógrafa Juliana Bittencourt, 31, teve contato com a obra no México, em 2014. Tendo vivido boa parte da vida na Vila Ayrosa, em Osasco, Grande São Paulo, questionou-se como seria se as pessoas do bairro tivessem contato com essas ideias. Lá, viu as pessoas empobrecendo em momentos de crise e os índices de violência contra mulher aumentarem. “É nítido que os locais periféricos possuem muita violência, mas também há muita resistência”, afirma.

A obra já circulava em diferentes países da América Latina, conta Cecília Rosas, 35, formada em Letras e especialista em literatura russa. E por estar na internet, chegou a países de Língua Portuguesa. “Me surpreendi ao saber que a versão produzida por nós está sendo lida em Angola”.

Para Cecília existe uma invisibilidade para o trabalho das traduções, a maioria das vezes o nome dos tradutores não são citados. “É importante destacar que são pessoas que fazem esse trabalho”, relembrando a participação de Aline Sodré.

A advogada e integrante do coletivo, Leila Giovana Izidoro, 26, acredita em uma opressão e caça contra as mulheres potencializada pelo consumo, “elas acabam se endividando para garantir o básico que o Estado não garante, perdendo perspectivas de vida, trabalhando excessivamente. É uma morte lenta e horrível”.

Cientista social, Shisleni de Oliveira, 33, moradora do Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, destaca a importância do lançamento do livro ser na periferia. “Não faria sentido fazer e não ser numa quebrada, é importante as ideias da Silvia chegarem aqui, no local onde essa caça acontece de maneira menos mascarada”.

Na tradução, a também cientista social Lia Urbini, 32, descobriu uma bruxa que era camponesa, conhecedora de métodos naturais para controlar a reprodução, que organizava reuniões para pensar soluções de problemas. Muito diferente daquela de chapéu pontudo, com poções mágicas e rituais macabros. Lia expressa que a tradução foi rica em vivências. “A formação pessoal foi também de se descobrir no processo, com diferentes saberes partilhados”.

O livro Calibã e a Bruxa pode ser comprado por 50 reais na página da Editora Elefante ou baixado gratuitamente na página do Coletivo Sycorax neste link. A oficina em Guaianases acontece na Biblioteca Cora Coralina (R. Otelo Augusto Ribeiro, 113 ), a partir das 12h.

Sheyla Melo é correspondente de Guaianases. 

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