Moradores transformam pontos de lixo em canteiros na Brasilândia e no Itaim Paulista

Agência Mural

Danielle Lobato
Ronaldo Lages

Quem mora na Vila Borges do Canto estava cansado de ver o acúmulo de lixo, entulho e até animais mortos no entorno da escola Ezequiel Ramos Júnior, no distrito do Itaim Paulista, extremo leste da capital.

A 40 quilômetros dali, na rua do Farol, na Vila Brasilândia, há mais de dez anos um terreno baldio se tornou ponto irregular de descarte no bairro da zona norte.

Em comum, além do problema, está o fato de que, em ambos os casos, moradores decidiram organizar ações para restaurar os espaços, criando canteiros com jardins e desenhos nas paredes.

Na zona leste, os trabalhos tiveram início quando o eletricista Carlos Augusto Arruda, 37, e o pescador Cícero Antônio da Silva, 50, mobilizaram amigos e vizinhos para fazer um mutirão.

“Por ser uma viela estreita, o carro da coleta não passa. Muitos moradores daqui e até mesmo de fora viam isso como uma brecha para jogar lixo”, afirma Silva.

Reforma do espaço foi feita por moradores como o segurança Renato (Danielle Lobato/Agência Mural/Folhapress)

Arruda conta que ajudou durante as folgas do trabalho. “Fiquei responsável por levantar as paredes do canteiro, rebocar, mexer massa”, ressalta.

Segundo os participantes, no início a maior dificuldade foi a conscientização de que cada um é responsável pelo lixo que produz.

“Quando começamos o jardim já alertava aos vizinhos que teríamos de nos impor. Senão, ninguém respeitaria o local. Começamos a vigiar e o pessoal parou de trazer resíduos para cá”, diz o porteiro Rafael Felipe Vieira, 25.

A implementação do canteiro foi feita com recurso dos moradores, que doaram terra, mudas de plantas, tintas, tijolos, cimentos ou colaboraram com a própria mão de obra.

Foi o caso do segurança Renato Santos, 35,  morador do Itaim Paulista, que pintou emojis, aqueles rostinhos usados em mensagens eletrônicas, na parede do canteiro. “Aqui há muitas crianças. Quis fazer algo que fosse engraçado e de conhecimento de todos”, afirma Santos.

Muro pintado com emojis por morador do bairro (Danielle Lobato/Agência Mural/Folhapress)

Os moradores mais antigos como Josefa Arruda, 65, também não ficaram de fora da ação. Ela rega as plantas do espaço.“A mudança é perceptível. Doei todas as mudas de plantas da minha casa para que isso acontecesse”, finaliza Josefa.

Segundo os moradores, o projeto que já dura cinco meses, tem o intuito de se expandir com a criação de uma área de convivência na viela Borges do Canto. A ideia é obter, por meio de um abaixo-assinado, equipamentos de ginástica e mesas de xadrez para as crianças.

De acordo com o Observatório do Cidadão 2016, com nota zero, o distrito do Itaim Paulista é um dos piores avaliados em equipamentos públicos esportivos.

BRASILÂNDIA

Região da Brasilândia antes da reforma do espaço (Divulgação)

De acordo com dados da Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana) a região de Freguesia do Ó/Brasilândia é a nona colocada, entre 30 regiões mapeadas, com 159 pontos viciados de descarte irregular de detritos em via pública.

Era o caso da rua do Farol, que permaneceu nessa situação durante anos. Após reclamações no bairro, a prefeitura regional realizou a limpeza, retirou o entulho e concertou canos que estavam quebrados no local.

Depois, durante dez dias, moradores do bairro ao lado de uma comunidade religiosa realizaram a revitalização com a pintura, colocação de bancos e plantas.

O pastor Enéias Rachid de Góes, 60, afirma que a maior dificuldade era que pessoas de outras regiões sujavam o local. “Por mais que lutássemos conscientizando a vizinhança, pessoas de regiões mais distantes vinham e despejavam destroços e restos de toda ordem”, conta Góes.

“As mulheres têm mais consciência que os homens. Elas se uniram para a criação da praça trazendo plantas e sugerindo ideias”, completa.

O funileiro Lucas Gomes de Abreu, 25, colheu assinaturas para um abaixo-assinado que foi encaminhado para a prefeitura regional, e trabalha em uma oficina ao lado do canteiro.

“O cheiro era horrível. Havia descarte de tudo: móveis velhos, animais mortos e carcaças de automóveis fazendo com que ratos entrassem na oficina. Tínhamos que dar a volta por outra rua, pois não havia passagem por aqui por causa da quantidade de lixo”, relembra Abreu.

Para dona de casa Margareth da Silva Souza, 60, e moradora da Brasilândia há 50, não haverá mais sujeira perto de sua casa, pela mudança no ambiente.

“Antes o carro da prefeitura vinha e recolhia os detritos, no mesmo dia à noite já estava cheio novamente, pois era visto como um espaço para se jogar lixo”, diz. “Agora é outra coisa, quem ganha é a comunidade”.

Danielle Lobato é correspondente do Itaim Paulista
Ronaldo Lages é correspondente da Brasilândia
daniellelobato.mural@gmail.com
ronaldolages.mural@gmail.com

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