Falta de linha de ônibus dificulta acesso entre Mairiporã e Guarulhos

Humberto Müller

Apenas 30 quilômetros separam o município de Mairiporã, região norte da Grande SP, de Guarulhos. O caminho até o centro da cidade vizinha, feito de carro pela rodovia Fernão Dias, leva pouco mais de 30 minutos, mas quem utiliza o transporte público para percorrer o mesmo trajeto pode levar até 1h a mais.

O motivo é a falta de linhas de ônibus que ligam Mairiporã e Guarulhos, a segunda maior cidade do estado. No dia a dia, a dificuldade de acesso impede que moradores de Mairiporã procurem serviços, trabalho, lazer e até estudo em Guarulhos.

Quem tenta se deslocar de Mairiporã até Guarulhos todos os dias garante que o caminho é “muito fora de mão” e “cansativo”. Esse é o caso do analista de SAC, Ronaldo Pereira da Silva, 22, aluno do último ano do curso de arquitetura da UNG (Universidade Guarulhos).

“Você desce, anda, espera outro ônibus, e ele vem lotado. Se tivesse uma linha direta pro centro de Guarulhos seria ideal”, diz. Ele ainda conta que teve que mudar o trajeto para um mais longo e mais caro por conta da insegurança. “Já fui assaltado quatro vezes no ponto da Vila Galvão voltando pra casa. Comecei a fazer um caminho voltando até o Terminal Tietê para não ter que esperar lá na volta.”

Um dos pontos críticos de quem segue viagem de ônibus é a parada localizada na região que faz divisa entre São Paulo e Guarulhos, próxima do km 85 da rodovia Fernão Dias.

O local fica no alto de um viaduto, sem infraestrutura, e serve de ponto para as linhas intermunicipais que saem de Mairiporã com destino a capital paulista.

Lixo, mato alto e falta de iluminação ao lado da rodovia pioram a sensação de insegurança (Humberto Müller/ Agência Mural/FolhaPress)

De lá, os moradores têm que descer por uma escada estreita e íngreme, construída para escoar água de chuva, e caminhar por baixo do viaduto para, então, pegar outro ônibus em frente ao terminal Vila Galvão. O entorno do viaduto também não é agradável para quem precisa passar pelo local, já que está cheio de lixo, mato alto e não tem quase iluminação.

Para evitar descer nesse local muitos levam até meia hora a mais no trajeto só para descer em outro ponto e pegar um ônibus voltando.

Para a estudante de pedagogia Paula Cristina Toledo, 32, a dificuldade de acesso foi o principal motivo para ela desistir de um estágio em Guarulhos. “Eu pegava o ônibus de manhã e descia na rodovia. Por várias vezes estava escuro ainda. Quando descia na ponte já começava a rezar, pois morria de medo.”

Segundo ela, a segunda parte do trajeto era ainda mais complicada. “Dali eu andava até o terminal Vila Galvão, atravessava a avenida e pegava o segundo ônibus, em outro ponto de ônibus lamentável, sem cobertura e correndo o risco de ser assaltada. Por várias vezes fui abordada, fora o ônibus que demorava demais. Era a mesma coisa na volta para casa.”

Sobre a desistência do estágio ela completa. “Eu desisti pois pude optar por isso, já quem não pode, é obrigado a enfrentar isso todos dias.”

A recepcionista Bianca Martinho, 23, conta que por conta da dificuldade preferiu pagar um transporte fretado para estudar. Ela conta que no terceiro ano de faculdade pagava R$ 270 reais para uma van, um valor que no início do curso era de R$ 180 reais mensais. “Fui de fretado nos primeiros anos, mas agora faço estágio e o horário da ida não é mais o mesmo, também era um valor muito alto, como sou estudante, eu pago meia no ônibus.”

Na volta, uma parte das linhas de ônibus da capital com destino a Mairiporã fazem um trajeto diferente, cruzando o Jaçanã e passando por dentro da Vila Galvão. Porém, como elas não param no terminal, os moradores precisam esperar em pontos mais distantes. Quem volta de noite encontra esses locais muitas vezes escuros e vazios. “O caminho é terrível, hoje saio mais cedo do trabalho por conta do trajeto”, conta Bianca.

Na volta, quando duas linhas entre São Paulo e Mairiporã passam pela Vila Galvão, a escuridão assusta os passageiros (Humberto Müller/ Agência Mural/FolhaPress)

Para ela a falta de um ônibus é o maior problema de quem vai e volta de Guarulhos.

“Se tivesse uma linha que passasse pela Vila Galvão e fosse para o centro ajudaria muita gente. Nossa cidade é do lado, e Guarulhos tem tudo, mas não temos acesso para estudar ou ir num shopping.”

Segundo informações da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), o Terminal Metropolitano Vila Galvão foi inaugurado em dezembro de 2014 para integrar o corredor de ônibus Guarulhos-Tucuruvi. O terminal atualmente opera com apenas duas linhas metropolitanas e 9 municipais, beneficiando diretamente 10 mil usuários por dia. O local fica a apenas 20km do Terminal Rodoviário de Mairiporã, um trajeto que, quando feito de carro, não leva mais do que 20 minutos.

Questionada sobre a possível criação de uma linha entre as duas cidades, a EMTU respondeu em nota informando que “não existem, no momento, estudos nesse sentido tramitando.” Porém, ela “considera que a sugestão é relevante para o transporte metropolitano” e que o fato é levado em conta na elaboração de possíveis propostas de implantação.

Questionada sobre o ponto no km 85 da Rodovia Fernão Dias, a ARTERIS, concessionária que administra a rodovia, respondeu “que o trecho em questão é extremamente urbanizado. Por esse motivo, a região fica muito exposta e diariamente recebe um grande volume de lixo às margens da rodovia.” A concessionária diz que “possui equipes que constantemente atuam na limpeza e conservação da pista, passarelas, viadutos, iluminação e área de domínio desta região.”

A nota informa ainda que “equipes da concessionária estão no local e realizam a limpeza das escadas laterais e viaduto. Com a relação à iluminação, a concessionária informa que identificou um problema na fiação e irá realizar a manutenção.”

Humberto do Lago Muller é correspondente de Mairiporã
lagomuller.mural@gmail.com

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