Sem dinheiro, universidade federal em Itaquera não tem prazo para começar

Sheyla Melo

No local onde funcionava a antiga metalúrgica Gazarra, em Itaquera, na zona leste, um campus da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) previa aulas para 3,5 mil alunos a partir de 2020 no chamado Instituto das Cidades. 

No entanto, sem repasse do dinheiro previsto, não há mais previsão para o começo dos cursos de administração pública, arquitetura e urbanismo, engenharia ambiental e sanitária, engenharia civil e geografia. 

Por enquanto, apenas um dos três prédios previstos foi construído e tem recebido cursos de extensão. 

O terreno de 170 mil metros quadrados na avenida Jacu Pêssego foi leiloado e a aquisição contou com negociações da Unifesp, da Prefeitura de São Paulo e do MEC (Ministério da Educação) em dezembro de 2014. Na época, foi acordado que o projeto seria feito em cinco anos.

O Campus Leste tem previsto R$ 110 milhões para a execução do projeto, segundo o MEC. O órgão afirma que os valores previstos inicialmente não são possíveis pela situação econômica do país e que o projeto está em análise.

Segundo o pró-reitor Pedro Arantes, 43, apenas R$ 3 milhões foram recebidos para as obras. Além disso, foram criadas 15 vagas para professores, das 170 previstas.

Campus tem apenas um prédio construído (Sheyla Melo/Agência Mural/Folhapress)

Em agosto, o espaço quase foi ocupado por movimentos de moradia, que deixaram o local após conversar com a reitoria.

“[A implantação do campus] é esperança de que mais gente das quebradas entre no ensino superior e quebre essa barreira gerada pelo ensino das escolas públicas”, afirma Marcello Nascimento de Jesus, 39, professor de geografia e estudante do Curso de Extensão Cidades, Planejamento Urbano e Participação Popular.

Um ato em defesa da implantação definitiva foi realizado no sábado (11), com mais de 200 pessoas entre estudantes, professores, movimentos de cultura, moradia, saúde e educação, para pressionar a efetivação da unidade.

“Venha no ato para garantir a Universidade Pública aqui na Jacu-Pêssego, em Itaquera”, diziam cartazes. “As pessoas paravam com certo estranhamento, surpresas por existir essa universidade, para saber onde era, quais cursos teriam e procedimentos para entrar”, ressalta Marcello.

Cerca de 200 pessoas participaram do ato, segundo os organizadores (Sheyla Melo/Agência Mural/Folhapress)

“No Brasil, a universidade pública ainda tem um caráter elitista e, como o conhecimento ajuda a transformar as realidades, temos que ocupar esses lugares”, diz Sandro Barbosa, 40,  morador do José Bonifácio e liderança local.

campus é sede do Cursinho Popular Baobá com aulas aos sábados. Neste mês, teve início o curso de especialização “Cidades, Planejamento Urbano e Participação Popular”.

Os organizadores pediram que todos enviassem e-mail para o Ministro do Planejamento, para reivindicar a contratação dos profissionais e que as verbas cheguem ao campus. 

A Unifesp, em nota, diz que a implantação foi paralisada. “Devido à não liberação de vagas e recursos pelo atual governo, a implantação está paralisada. Não há previsão de liberação de vagas e recursos”.

MEC

Em nota, o Ministério da Educação afirmou que “a expansão pactuada anteriormente para todas as universidades federais foi feita sem planejamento e sem previsão orçamentária de longo prazo”.

Segundo o órgão, estavam previstos R$ 190 milhões para todas as obras da Unifesp, o que está “fora da realidade do país neste momento, devido à crise e à diminuição da arrecadação federal desde 2014, e, caso disponibilizado, acarretaria em uma perda desproporcional para as outras instituições federais”.

O Ministério alega que tem feito esforços no sentido de buscar junto ao MPDG (Ministério de Planejamento, Desenvolvimento e Gestão) a ampliação do número de vagas. “Para iniciar as atividades da Zona Leste, o MEC solicitou ao MPDG, em 2018, a disponibilização de 60 vagas de docentes, 55 técnico-administrativos da Classe E e 40 técnico-administrativos da Classe D, demanda que se encontra em fase de análise por aquela Pasta”.

O MEC conclui que o processo ainda será avaliado para “implantação ou um redimensionamento do projeto por parte da universidade, de forma a torná-lo mais factível ao momento atual do país”.

Sheyla Melo é correspondente de Cidade Tiradentes
sheylamelo@agenciamural.org.br

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