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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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Professores montam sala dentro de casa para ensinar adultos a ler

Por Blog

“Voltei a estudar porque perdi várias chances de emprego por não saber escrever e hoje eu sei o quanto é importante. Semana passada fui a uma entrevista de emprego e meu irmão começou a preencher a ficha pra mim. Quando o patrão viu, perguntou o motivo. Quando falei que eu não sabia escrever, ele me dispensou”. Esse é o desabafo de Valto Guedes Amaral, 33, desempregado, recém-chegado na casa de Claudio Chaves,48, pedagogo, e Noemia Cardoso, 51, educadora social.

O casal de professores dá aulas no Jardim Filhos da Terra, região do Jaçanã, na zona norte, desde 2002, e oferece alfabetização para adultos e reforço escolar, aos sábados pela manhã, para crianças e adolescentes. Chaves e Noemia não recebem ajuda. “Muitos me perguntam o que eu ganho com isso, e eu respondo: é isso aqui”, Chaves conta mostrando um caderno com letras garrafais de quem acabou de aprender a escrever.

Material educativo é feito com recortes de jornais e revistas
Material educativo é feito com recortes de jornais e revistas

Todas as aulas ocorrem em uma sala abaixo da casa. A alfabetização é de segunda à quinta, das 19h às 21h. A sala tem cadeiras escolares, lousa, mapas, pastas com recortes de jornal e tampinhas de garrafas coloridas com letras do alfabeto. Nas outras duas salas ao lado, há livros e mais material educativo.

“Quando os alunos chegam aqui, eles ficam inseguros e tímidos. Teve um que até no primeiro dia de aula veio com a esposa, assistiu aula com ele. No segundo dia ela veio até o portão. Daí ele se sentiu acolhido e agora vem sozinho”, comenta Noemia.

Para Claudio, o objetivo do trabalho é oferecer um ensino de qualidade sem burocracias.  “Fizemos cursos para dar aulas usando um método de alfabetização, mas preferimos usar nossos métodos, gostamos da metodologia de Paulo Freire”, completa.

“Aqui não ensinamos só o ABC e sim assuntos relacionados ao bairro, a vida e a sociedade. Não é só ler um panfleto de um supermercado, é preciso fazer as contas dos produtos, das promoções. Saber se valem a pena ou não. Saber ler a data de validade, fazer conta”, relata Claudio.

Sala de aula onde o professor Cláudio e sua mulher dão aulas
Sala de aula onde o professor Cláudio e sua mulher dão aulas

“Cheguei de Alagoas aos 19 anos, comecei a estudar e fui até a oitava série, mas mesmo assim não sabia quase nada. Muitas pessoas que aprenderam a ler me indicaram aqui”, comenta José Aparecido dos Santos, 37, auxiliar de limpeza. Ele frequenta as aulas há um ano e conta que daqui a um tempo quer voltar para a escola regular e terminar os estudos.

“Nossa proposta é dar aula com qualidade, mesmo que para poucos. Falo para eles que quanto mais conhecimentos eles tiveram, mais qualidade de vida vão ter. Sabendo ler e escrever, eles têm oportunidade de anotar um recado, fazer uma compra e assim ter oportunidade de mudar de cargo ou ajudar o filho na lição de casa”, explica Claudio.

Priscila Gomes, 29, é correspondente de Vila Zilda
@prigomes1983
priscilagomes.mural@gmail.com

 

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