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Blog dos correspondentes comunitários da Grande SP

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Blog é escrito por correspondentes comunitários --em sua maioria estudantes ou já formados em jornalismo, mas, sobretudo, interessados em contar o que se passa na região em que moram, na periferia da Grande SP.

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“Sou da geração que está vivenciando esse momento nas quebradas”

Por Blog

O poeta Akins Kintê venceu o 1º Festival de Poesia de São Paulo, realizado em 22 de outubro no Centro Cultural São Paulo. Fábio Monteiro, 30, desde os 15 anos utiliza o nome artístico Akins Kintê, de referências africanas. Com dois livros publicados, o poeta circula por diversos saraus das periferias de São Paulo. Morador da Brasilândia, na zona norte da cidade, ele organiza mensalmente em sua casa o ‘Sarau do Kintal’. O Mural conversou com ele após o evento sobre como foi receber a premiação.

Akins Kintê, vencedor do 1º Festival de Poesia de São Paulo (Créditos: Lívia Lima)
Akins Kintê, vencedor do 1º Festival de Poesia de São Paulo (Créditos: Lívia Lima)

Mural: Akins, como surgiu o poema vencedor “Duro não é o cabelo”? Qual a sua mensagem?

Akins: Sempre achei “da hora” dreads, desde criança me identifico. Depois com 15 anos, mais ou menos, deixei crescer o cabelo. Usei black, trança rasteira e dreads. Sempre teve muita ideia adversa sobre o cabelo crespo e isso sempre me incomodou. Escritores mais velhos como Cuti, Oliveira Silveira, Cristiane Sobral sempre discutiram essa ideia do cabelo crespo. Foram referência para mim, também na escrita, então meu poema é continuação desses escritores e também dessa luta contra a opressão. No poema, debato a importância do cabelo crespo, de mantê-lo crespo na essência, também procurei ligar várias ideias sobre o racismo, mas procurando escrever com muita sensibilidade, sem esquecer que é poema e tal…

E como funciona o seu processo criativo? Como você define o seu estilo?

Preciso de concentração, ele (o poema) precisa nascer no meu coração, depois percorrer pelo labirinto da mente. Se o poema achar a saída, ele nasce. Gosto de escrever em casa, de reler o poema um monte de vezes até ficar bem lapidado. Meu estilo: poeta negro de periferia.

Sobre o concurso, como ficou sabendo e decidiu participar?

Eu vi pelas redes sociais, devo ter visto no Facebook. Fiquei com muito medo de entrar, me acho um poeta comum.

Como foi levar o prêmio principal? Qual a importância dele pra você?

Ganhar o prêmio foi sofrido. Só tinha monstro da cena literária, o mais comum era eu, um xucro na rua da arte. Para mim, a maior importância de ganhar esse prêmio é ver como esse poema está sendo importante, pois trata de racismo, enfrentamento, opressão… E sabemos que São Paulo tem se mostrado reacionária ao extremo. Então isso é muito importante.

Qual é a dica para a molecada que quer fazer poesia? Dá pra viver de poesia?

A poesia pra mim é estilo de vida, minha filosofia. Se tem vontade de fazer poesia, faça mesmo. Acho que o único que pode dizer não pra você, é você mesmo… Mas tem que ser insistente, leitura é bom alimento pra escrita. Eu gosto de fazer oficina, então consigo arrumar um troco dando aula.

A periferia tem cada vez mais respirado a poesia com os saraus e outros movimentos literários. Qual sua visão sobre esse cenário?

Importantíssimo, transformar bares, quintais, esquinas de ruas, os becos e vielas, campos em centros culturais. Mesmo sem apoio da prefeitura fazer acontecer a arte. Sou da geração que está vivenciando esse momento importante nas quebradas do Brasil, muitas pessoas voltando a estudar, vários outros sabendo que não pode ficar bem louco. Isso não pode parar nunca.

Quais as suas expectativas nesse meio literário?

No meio literário, penso que a tendência é evoluir cada vez mais a produção, digo em qualidade mesmo, gosto de ver essa arte que surge nas periferias com a cara das quebradas. A expectativa é esse progresso na escrita periférica com a cara da periferia.

Seu nome é forte, poético. Qual a história dele? Afinal, quem é o Akins Kintê?

Nasci como Fabio Monteiro, mas desde os 15 anos uso Akins Kintê. Quando comecei a ler, conheci Akins, que significa jovem guerreiro em Yorubá (umas das línguas da Nigéria); o Kintê vem da leitura do livro Negras Raízes. Kunta Kintê é um personagem sequestrado da aldeia Juffure, na África. Ele vem para o terror das Américas, onde é brutalmente perseguido, humilhado, espancado, mas nunca deixa seus costumes, sua “Africanidade”. Por isso, uso também esse nome. Akins Kintê é maloca, do jeito dele, com os poeminhas e filmes que faz bate de frente com as injustiças. Romântico e doido (risos).

Confira a poesia completa “Duro não é o cabelo” de Akins Kintê:

Cleber Arruda, 33, é correspondente da Brasilândia
@CleberArruda
cleber.mural@gmail.com

Lívia Lima, 27, é correspondente de Artur Alvim
@livialimasilva
livia.mural@gmail.com

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