Livro relata histórias de pessoas trans no mercado formal de trabalho

“Você já parou para pensar como é ser uma pessoa trans no país que mais mata transexuais e travestis no mundo? Ou em como é difícil conseguir uma vaga no mercado formal de trabalho quando 90% da população precisa recorrer a informalidade, como a prostituição?”.

Luiza, Renata, Bruno, Enzo, Diogo, Samantha, Helena e Klaus são oito pessoas trans que, além de sobreviver à violência e conseguir um emprego de carteira assinada, respondem aos questionamentos que a jornalista Paloma Vanconcelos, 26, moradora da zona norte de São Paulo, apresenta no livro “Transresistência, Histórias de Pessoas Trans no Mercado Formal de Trabalho”.

“A grande mídia traz à tona a transexualidade de uma forma muito ampla, geralmente explicam a questão do gênero e nada mais além disso. É muito difícil encontrar algo relacionado ao mercado de trabalho, então foi a partir desse viés que iniciei o processo de criação do livro”, explica Paloma, que é correspondente da Agência Mural.

Além de retratar a história de vida das pessoas, o livro também permite conhecer o ambiente de trabalho e a relação dos entrevistados com os funcionários, como Luiza, que é a primeira personagem a ser apresentada no livro.

Então moradora de Petrolina (PE), Luiza decidiu, aos 18 anos, que era a hora de “ganhar o mundo”. Era 1991 e ela seguiu um dos caminhos mais comuns para travestis, o universo dos salões de beleza.

Após 12 anos atuando como cabeleireira, em 2003, embarcou para a Europa e entrou na prostituição. Hungria, Itália, Espanha, Alemanha, Luxemburgo, Rússia e Polônia foram os destinos de Luiza. Porém, o que mais despertava o seu interesse era o circuito cultural dos países, paixão que carrega desde a época da escola.

Ironia do destino, ou não, em 2016 mudou-se para São Paulo e, além de ser a primeira personagem do livro, é, coincidentemente, a primeira funcionária trans do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

Uma estimativa feita pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) aponta que 90% das pessoas trans recorrem à prostituição ao menos em algum momento da vida. A SDH (Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República), no Relatório da Violência Homofóbica no Brasil, alerta que a transfobia é o motivo principal para que a prostituição seja um “caminho” para a sobrevivência.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ainda não inclui pessoas trans no senso de amostragem da população brasileira, por conta da ausência de registros e da dificuldade de obter o nome social no registro civil. A ONU (Organização das Nações Unidas) alega que ao menos 2% do total de 2,4 milhões de pessoas traficadas são transexuais ou travestis.

“Conseguir dados sobre pessoas trans foi uma das maiores dificuldades para elaborar o livro. O processo de procura pelos personagens, marcação de entrevistas e o acesso aos dados demorou cerca de um ano”, relata Paloma.

Os caminhos percorridos por Paloma, em oito meses, na busca dos personagens, foram: Campo Limpo, Armênia, avenida Paulista, Brás, Jabaquara, Vila Mariana e Tucuruvi. Além disso, ela se dedicou a ver inúmeras horas de documentários e de filmes sobre esse tema para entender o máximo possível.
Outro momento primordial para a elaboração do livro foi o acompanhamento da gravação de uma entrevista com uma drag queen dentro de uma igreja evangélica.

“[O livro] é composto por oito narrativas de vida capazes de representar o que esses seres humanos mais fazem na vida: resistir”, diz Paloma.

Com 140 páginas e tiragem de cem cópias, o livro foi publicado de forma independente em 2017. Até o ano que vem, deve ser lançada uma nova tiragem.
TRANSRESISTÊNCIA: HISTÓRIAS DE PESSOAS TRANS NO MERCADO FORMAL DE TRABALHO
AUTORA Paloma Vasconcelos
Publicação independente, tiragem esgotada.

Jéssica Souza, 26, é correspondente de Guarulhos.
jsouza.mural@gmail.com

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