Morre historiadora que mapeou influência africana em Guaianases

Lucas Veloso

Entre 1930 e 1960, o cartório de Guaianases, na zona leste de São Paulo, registrou mais bebês brancos do que negros. No período, havia cobrança para as certidões de nascimento e, por isso, mais recém-nascidos brancos foram registrados. Quando o processo se tornou gratuito, a predominância de afrodescentes voltou a ser maior entre os documentos emitidos.

Esta foi uma das descobertas da historiadora e moradora do bairro Sheila Alice, 35, que morreu na manhã desta quarta-feira (15), no hospital Prof. Dr. Waldomiro de Paula, em Itaquera, zona leste.

Ela não resistiu às complicações de um problema pulmonar. O sepultamento será nesta quinta-feira (16), às 14h, no cemitério do Lajeado.

Sheila fez a pesquisa “Negros em Guaianases: cultura e memória”, para obter o título de mestre em História Social, em 2015, na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo. “Onde estão as memórias do povo preto? Foram apagadas das histórias de um bairro que se quer branco?”, dizia na justificativa do projeto.

Ela também fazia parte do Cpdoc Guaianás (Centro de Pesquisa e Documentação), coletivo de pesquisadores da região, além de ser frequentadora da Igreja Batista.

Sheila fez parte do CPDOC Guaianás (Acervo pessoal)

Para os membros do Cpdoc, a morte da amiga foi uma grande perda no processo de estudo e reconhecimento da construção de Guaianases.

“Compartilhamos juntxs conhecimentos sobre a nossa quebrada, construindo e fomentando projetos para o futuro sobre a história e memória dos bairros de Guaianases, Lajeado e Cidade Tiradentes, projetos que ela estaria à frente. Assim foi nessa madrugada, enquanto debatíamos idealizações e concepções do grupo, ela repentinamente partiu!”, diz o comunicado oficial do coletivo enviado para a Agência Mural.

Em sua pesquisa, Sheila usou o termo micro-Áfricas para definir as experiências culturais encontradas em Guaianases, que remetiam aos ancestrais africanos.

“Ela estava ligada com o conhecimento em relação ao povo, sua origem e causas. E isto através de estudos literários e levantamento de campo. Jovem repleta de energia e com uma mega bagagem. Ficou boas lembranças. Guerreira não morre. Sheila Vive”, comentou Almir Siqueira, amigo da pesquisadora e que a conheceu nos trabalhos de estudo sobre o bairro.

A autora denominava o trabalho de pesquisa sobre o tema como forma de ampliar o debate sobre vozes pouco ouvidas nas narrativas históricas.

“Participar dessa experiência negra do bairro e me fazer intermediária de tantas riquezas, tornando-as legíveis ao mundo acadêmico […] tem como objetivo colaborar com o efervescente grupo produtor de reivindicações históricas, resistências e reconhecimentos histórico-culturais que se tem composto pelos movimentos de intelectuais negros no Brasil e no mundo”, diz na conclusão.

Sheila, que faria aniversário no fim deste mês, para se definir usou na última linha da pesquisa um verso musical da cantora Ellen Oléria: “Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”.

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases
lucasveloso@agenciamural.org.br

Erramos: o texto foi alterado

A autora teve uma tromboembolia pulmonar e não complicação da diabetes, como citado inicialmente pelo relato de pessoas próximas.

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