Jovens do Capão Redondo usam poesia para manifestação política

Gisele Alexandre

Marcado na década de 1990 pelo rap dos Racionais MC’s,  pela literatura marginal de Ferréz e Sérgio Vaz, entre outros, o Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, vê uma nova geração de jovens que buscam na arte uma forma de manifestação.

Um desses exemplos é o Slam Capão, evento itinerante criado em novembro de 2017 por um grupo de pessoas do distrito. “Eu já batalhava em outras regiões e sentia falta de ter um slam na minha quebrada”, afirma a estudante Erica Gomes, 17, moradora do Jardim Santo Eduardo.

“Tem muitos poetas como eu que saem do Capão e vão para a zona leste batalhar. Então pensei em juntar uma galera pra organizar um evento aqui”, ressalta.

O slam é uma batalha de poesia falada que estreou no Brasil em 2008 e, desde então, tem crescido nas periferias. Para participar do campeonato, o poeta, chamado de slammer, precisa seguir três regras: ter poesias próprias, não ultrapassar o tempo de três minutos e se apresentar sem ajuda de acompanhamento musical.

No Slam Capão não há temas predefinidos. O slammer tem liberdade para se expressar, o que leva a abordagem de assuntos atuais.

“O slam tem essa característica de manifesto. Desenvolvemos poemas que abordam assuntos como o machismo, o racismo, a homofobia, o patriarcado e outras violações de direitos que temos na sociedade. Para nós o Slam é um lugar de descontração, mas também é um espaço de luta política”, finaliza Erica.

Erika participava dos slams no centro de São Paulo até organizar uma batalha no Capão Redondo (Gisele Alexandre/Agência Mural/Folhapress)

SARAU

“Sabe o que é violência ?
Os pretos morrendo na quebrada
Sabe o que é violência?
É faculdade que me é negada
Sabe o que é violência?
Você chamar meu cabelo de ruim
Falar que é pixaim
Violência foi você perguntar se eu não tenho pente em casa
Se o choque que eu tinha tomado
Não tinha saído fumaça
Violento foi esse comentário
Que me privou do meu cabelo
Que eu soltei só no ensino médio
Por uma coisa que você me disse no primário”

Jéssica Campos, 19, universitária, moradora do Capão Redondo e uma das organizadoras do Sarau do Capão.

Com poesia, música e dança, os saraus também ocupam o mesmo espaço. Um dos novos no distrito é o Sarau do Capão, evento organizado desde fevereiro de 2017, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo.

“O Sarau é um lugar de manifesto político”, afirma a universitária Tawane Theodoro, 19, uma das organizadoras da atração.

“A poesia marginal é política, seja qual for o tema, você sempre quer passar uma visão e mostrar o outro lado, essa é a nossa intenção”, completa.

O sarau reúne diversidade. De jovens mulheres negras com cabelos armados a uma menina ainda tímida acompanhada da mãe para declamar uma poesia própria. Assim como os manos do rap e homens homossexuais que assumem a própria identidade.

Em julho, Jéssica foi vencedora da 8ª edição do SlamOZ, que acontece em Osasco, Grande São Paulo (Gisele Alexandre/Agência Mural/Folhapress)

“Se o conhecimento político não chega diretamente pela poesia, eles despertam o olhar crítico e esse é o primeiro passo pra que um posicionamento seja construído”, diz Júlio César Nascimento de Miranda, 26, o Mano Judão, produtor fonográfico.

“Nesses quase um ano e meio de sarau percebemos uma mudança nas pessoas, tanto naquelas que recitam e enxergam o sarau como a oportunidade de colocar pra fora seus sentimentos, quanto no público”, conta Twane.

“Acho que isso tem muito a ver com eventos de poesia marginal. É algo libertador, pois você se sente incluído todo o tempo nos versos e falas e percebe que não está sozinho”, finaliza.

POESIA MARGINAL

Tawane começou a frequentar os encontros de poesia incentivada pelos professores do Cursinho Popular Carolina de Jesus (Gisele Alexandre/Agência Mural/Folhapress)

A poesia marginal surgiu nos anos 1970 como uma forma de protesto à produção literária. Durante a ditadura militar, autores independentes começaram a escrever e imprimir livros em mimeógrafos (equipamento manual já extinto que copiava a partir de estêncil, muito comum na época).

Como não dependiam das grandes editoras, os autores tinham liberdade para produzir textos contracultura, ou seja, traziam temas que faziam parte da vida cotidiana das pessoas, mas que até então não eram encontrados na literatura nacional.

No final dos anos 1980, o poeta Sérgio Vaz, um dos fundadores da Cooperifa, lançou o primeiro livro “Subindo a ladeira mora a noite”, obra que abriu espaço para que a poesia marginal ganhasse outra perspectiva: a de quem vive nas periferias.

“Faço poesia marginal há dois anos e conheci esse gênero quando participei de um campeonato na escola, que tinha o apoio da Sarau da Cooperifa. Foi depois disso que eu entendi que com a poesia eu também podia me manifestar e buscar meus direitos”, explica Erica.

O Slam Capão é realizado um sábado por mês, às 18h30. O local do evento é divulgado sempre com antecedência na página oficial do coletivo no Facebook. O Sarau do Capão também é produzido em um sábado por mês, às 17h30, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, localizada na Rua Algard, 82, Conjunto Habitacional Jardim São Bento.

Gisele Alexandre é correspondente do Capão Redondo
giselealexandre@agenciamural.org.br

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