Órfãos da Portuguesa, moradores da zona norte se unem para reerguer clube

Sidney Pereira

De 100 mil sócios para apenas 700. A crise da Portuguesa de Desportos atingiu com força a base principal de torcedores e associados na Vila Maria e Vila Guilherme. Esse pedaço da zona norte paulistana, formado por imigrantes portugueses e seus descendentes, tem laços afetivos com a Lusa, como é carinhosamente chamada.

Hoje, a agremiação do Canindé, com dívidas de R$ 350 milhões e atividades sociais quase paralisadas, já passou pelo drama de dois leilões de parte da área onde fica a sede e disputa apenas a Copa Paulista, a convite da Federação Paulista de Futebol. No Estadual, o clube jogará a segunda divisão em 2019.

Na região, as reações dos simpatizantes da agremiação vão da apatia e desânimo à decisão de um grupo de apaixonados em revitalizar a sede do clube, com mão de obra e recursos próprios. Além de resgatar uma tradicional área de lazer da cidade, o objetivo é comemorar o centenário, em 2020.

Residente na zona norte, o aposentado e conselheiro Artur Gomes, 61, e a locutora do estádio, Ana Vitória Mendes, 60, são os coordenadores do grupo de revitalização. A primeira investida foi no Centro de Treinamento e depois no salão nobre da sede. No início de 2018, teve início a campanha SOS Estádio do Canindé.

Duas gerações de amor pela Lusa: Rafael de Freitas e o pai Agostinho (foto Sidney Pereira)

“Já pintamos 20 mil metros quadrados da arquibancada, trocamos lâmpadas dos refletores e agora trabalhamos nas áreas internas”, comenta o conselheiro.

“Somos 154 voluntários. Tem corintiano, palmeirense, são-paulino e até botafoguense do Rio. Cada um dá o que pode, além do dinheiro da venda de chaveiros e camisetas”, conta.  

Para evitar o leilão de parte do terreno da sede, um morador da Vila Guilherme, o funcionário público Beto Freire, 38, pediu o tombamento histórico do complexo do Canindé.   “A Portuguesa pertence a cada torcedor, sócio e amante do esporte, e jamais poderá ser propriedade de uma pessoa só”, opina.

Para o conselheiro do time Artur Gomes, a crise começou há 30 anos, com a saída do “eterno” presidente Oswaldo Teixeira Duarte. As rendas caíram, os patrocinadores sumiram e nem a tradição de clube revelador de talentos foi mantida. Ele diz ser “100%” favorável ao tombamento. “O estádio é nosso e foi erguido com a ajuda da torcida. Meu pai doou cimento, areia e outras pessoas também”, justifica.

O estádio do Canindé foi pintado com a ajuda de voluntários (Artur Gomes/Acervo Pessoal)

Também da Vila Guilherme, o vendedor de softwares Rafael de Freitas, 32, herdou do pai a paixão pela Lusa e acompanha o time até em jogos pelo interior. Ele diz que ficou animado com o novo presidente, Alexandre Barros. “Ele acenou com transparência, mas, de repente os tratores chegaram e destruíram parte do clube”.

No espaço demolido, ficavam o parque aquático e um campo de terra. “O gramado está esburacado e os banheiros, imundos”, reclama Freitas, que diz também ser favorável ao tombamento. “Pelo menos o estádio ficaria em pé”.

A diretoria da Portuguesa diz aprovar a ajuda dos torcedores da região. “A Portuguesa não sai dessa situação sozinha, mas somente com a união de todos”, diz a coordenadoria de comunicação.

O clube afirma que o terreno vazio será alugado para eventos. “Parte do complexo aquático, além de subutilizado, estava com vazamentos e foi condenado pelo Corpo de Bombeiros. Pela área destinada à Feirinha da Madrugada serão recebidos R$ 75 mil de aluguel”, destaca.

Sobre o pedido de tombamento do Complexo do Canindé, o Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo informou que está na fase de “pesquisa inicial”, para apreciação do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental).

CRISE

Rebaixada em 2002 e de volta à Série A em 2012, quando foi chamada de Barcelusa, numa alusão ao Barcelona, a Portuguesa teve o agravamento da crise a partir de 2013.

Na última partida do Campeonato Brasileiro, contra o Grêmio, o jogador Héverton, suspenso pela justiça desportiva, foi escalado irregularmente. O time perdeu os pontos do jogo e foi rebaixado. Várias versões surgiram para esclarecer o caso, como falha de comunicação interna ou mesmo favorecimento a outra equipe, em troca de dinheiro. O Ministério Público entrou em ação para investigar o fato, sem resultado.

A partir do escândalo e rebaixamento para a Série B, a crise aumentou e a sede foi sendo abandonada. Hoje o time não disputa mais o torneio nacional.

Assediado por credores e com dívidas estimadas em R$ 350 milhões, o clube argumenta que “a área jurídica sempre lutará para que os leilões sejam contidos e suspensos, na área cível ou trabalhista”.

Sidney Pereira é correspondente de Vila Maria
sidneypereira@agenciamural.org.br

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