Parada LGBT de Cidade Tiradentes celebra arte e aborda preconceito

Giacomo Vicenzo

No domingo (23), foi realizada a segunda Parada LGBTQIA+ de Cidade Tiradentes, no extremo leste da cidade de São Paulo. Cores, bandeiras e maquiagens acompanhavam os participantes que caminharam cerca de 1,3 km pela avenida dos Metalúrgicos até a Casa de Cultura do Hip Hop Leste, onde shows fecharam o ato.

Com o tema “A Arte Resiste”, os organizadores enfatizaram a importância da caminhada para a periferia, tendo em vista que os principais eventos LGBTS são no centro da cidade.

Ator e advogado, Valder Bastos, 49, fez a apresentação transformado na drag queen Tchaka, a Rainha das festas – como se identifica. “É importante um evento desse na periferia. Essa causa é de todas as pessoas e mostra que existimos. Estamos nos lares, nas igrejas e nas quebradas. Precisamos ser vistos, reconhecidos e respeitados”, afirma Tchaka.

Um dos organizadores, Elvis Souza fala de casos de homofobia (Giacomo Vicenzo/Agência Mural/Folhapress)

O promotor de eventos Elvis de Souza, 32, um dos organizadores da parada, diz que a atração é necessária no bairro, por conta da homofobia. “Um amigo tomou uma facada na cabeça da própria irmã quando assumiu a homossexualidade. Outro poderia continuar morando na casa da família, mas foi impedido de comer dentro do lar”, comenta Souza.

Ele faz parte da Família Stronger, coletivo de jovens negros LGBTs e periféricos, que tem como principal causa a luta contra o preconceito e a violência.

Souza considera que a falta de políticas públicas contribui para uma postura mais intolerante no bairro. Durante a caminhada, houve vaias vindas de pedestres que circulavam por perto.

“Eu já sofri agressão no terminal de ônibus do bairro há 2 anos. Um grupo partiu para cima e me espancou, junto com alguns amigos que estavam comigo, entre eles até um hétero que apanhou só por estar conosco”, comenta o cabeleireiro Ítalo Brandão, 22.

Ítalo e Gabriel exibem tatuagens iguais. Amizade permaneceu mesmo com orientações distintas (Giacomo Vicenzo/Agência Mural/Folhapress)

“Eventos como esses aqui são importantes. Sou heterossexual e apoio. Tudo colorido, bonito, bem longe da mística que fazem do nosso bairro ser só favela e ladrão”, ressalta Gabriel Gonçalves, 24, instrutor de educação física.

Gonçalves esteve junto com Ítalo no evento. A orientação sexual de cada um não interferiu na amizade. “Temos até uma tatuagem igual. Ele é meu melhor amigo”, afirma Gabriel.

Para a professora Juliana Cibriano, 36, foi a primeira oportunidade de participar de um evento assim no bairro. Ela fez parte do bloco ‘Siga bem Caminhoneira’, de mulheres lésbicas e bissexuais. “Muita gente cresce e morre sem sair da Cidade Tiradentes. Precisamos estar aqui dizendo que vivemos e resistimos”, afirma.

RESISTÊNCIA

“Temos espaço para todos heterossexuais ou gays”, afirma Ettore Verissimo, 33, maestro e criador do Coral Câmara LGBT, que recebe interessados em participar todas as terças a partir das 20h no metrô República. 

O tema também inspirou Jal Moreno, 29, coordenador da Casa de Cultura do Hip Hop Leste. Desde 2008, ele não se ‘montava’ como drag queen. No dia do evento, decidiu se transformar na personagem Cristal.

Uma senhora aguardava com ansiedade ao lado de fora do pequeno imóvel que integra o local. Ela nunca havia visto Moreno caracterizado.

“Ela é minha mãe de consideração. É usuária do espaço e temos uma relação de carinho muito forte que se estreitou ainda mais desde que ela perdeu sua mãe e o seu marido”, explica Jal.s

Os colaboradores do espaço, que trabalham para Jal, nunca o haviam visto como Cristal. A caracterização surpresa gerou olhares curiosos. “Posso te chamar de chefe hoje?”, perguntou um deles. “Hoje não, hoje é Cristal”.

“Em qualquer lugar, a arte tem que resistir, aqui ou no centro e a arte drag é resistência total”, comenta. “Este é um bairro complexo, religioso. Ser LGBT aqui é duas vezes mais difícil. Muita gente deixa de vir ao espaço. Dizem que não vêm porque o coordenador é um veado. Tento vencer esse preconceito com bom atendimento e atenção a todos os frequentadores”, afirma.

Giacomo Vicenzo é correspondente de Cidade Tiradentes
giacomovicenzo@agenciamural.org.br

VEJA TAMBÉM:

‘Cidade Tiradentes é uma mulher negra e mãe solteira’, diz escritora Cláudia Canto

Em Cidade Tiradentes, biblioteca estimula leitura de autores negros

Salsicha Jones e Maria Nunes: os lutadores de Cidade Tiradentes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *