No Dia das Crianças, sete brincadeiras tradicionais das periferias

“Dooooois ou um” 

Quem nasceu nas quebradas e fez parte dos anos 1980 e 1990 sabe bem a importância do asfalto para se divertir. Um pedaço de papel na mão, uma pedrinha ou uma garrafa de plástico eram suficientes para garantir a alegria da molecada.

“Brincar é fundamental para o desenvolvimento físico, psíquico, emocional e social da criança”, explica o psicólogo Guilherme Campos.

O psicólogo conta que as brincadeiras solitárias são saudáveis, mas também é importante que as crianças interajam com os outros.

O convívio com outras crianças permite o aprendizado de saber lidar com o outro e com as diferenças. “É no contato com outras crianças que há a troca e o desenvolvimento da empatia – que é a capacidade de se colocar no papel de outra pessoa”, conclui Campos.

A brincadeira só pausava quando o carrinho da maçã do amor ou do churros parava na porta de casa e vendia por R$ 1. Velhos tempos. Tudo isso ao som do grupo Molejão ou É o Tchan.

Para comemorar o Dia das Crianças com um toque de nostalgia aos mais velhos, a Agência Mural listou sete brincadeiras das antigas que fizeram parte da nossa infância.

Brincadeiras nos anos 1990 e 2000 vão de jogos de futebol a brincadeiras com garrafas pet (Arte: Magno Borges/Agência Mural)

1 – BATER TAZOS

Quem fez parte do final dos anos 1990 e não teve uma coleção de tazos, que atire a primeira pedra. Febre entre a molecada, era comum nos recreios da época formar uma rodinha de meninas e meninos para trocar os tazos repetidos e fazer disputas para ver quem virava mais.

De metal, brilhantes, animados ou raros, ou até mesmo os voadores, sempre tinha aquele no grupinho que ostentava os melhores e que só comprava salgadinhos para aumentar a coleção. Vai me dizer que você não era um deles?! E só um detalhe: ter tazos não era suficiente! Precisavam de um porta-tazos para completar a ostentação.

“Até hoje, tenho a minha coleção guardada com muito carinho, inclusive o porta-tazos”, relembra Natânia Silva, 27 anos, moradora da Vila Ayrosa.

2 – PEGA PEGA DE BIKE

 “Comigo não morreu! Comigo não morreu! Comigo não morreu!”. Um grupo de 10 a 15 crianças gritavam e os dois últimos a soltar o grito eram os pegadores. Rapidamente formavam-se as duplas. A criança mais velha carregando a mais nova.

O pega pega de bike foi um marco na infância nos anos 2000 no bairro Vila Schunck, em Embu Guaçu, região metropolitana de São Paulo. “A gente brincava  sem ter a noção de tempo. É aquela história, a gente só sabia que tinha que ir para casa quando escurecia e quando a mãe gritava pra entrar”, relembra Fernando Santos, hoje com 28 anos.

“O legal é que éramos em grande número e sempre um trombava com o outro. A gente caía e ralava o joelho e o medo maior não era a bronca da mãe e, sim, o merthiolate”.

3 – BOLINHA DE GUDE

Feitas de vidro, as bolinhas coloridas faziam a alegria das crianças que, em sua maioria, se reuniam na rua para brincar. Cícero da Silva Gomes, 52, morador de Osasco, na Grande São Paulo, é um dos que tinha a bolinha de gude como uma das brincadeiras preferidas.

“Jogava com os colegas na rua que, até então, não era asfaltada. Brincávamos em lugar que tinha terra. Eu era bom na bolinha de gude”, relembra. As diferentes formas de jogar e o custo baixo foram alguns dos motivos que fizeram a brincadeira tão popular.

4 – TACO

Um grupo se juntava e disputava em duplas partidas de taco. Em uma área livre, as equipes se dividiam: enquanto a primeira tinha que defender uma garrafa pet colocada de cada lado do espaço com o taco, a outra era responsável por derrubar a garrafa.

O jogo se dava por vencido quando a dupla do taco conseguia arremessar a bolinha para longe, ao passo que um iria buscá-la e o que estava com taco cruzava o “campo” de cima para baixo. Cada cruzada valia um 1 ponto, hein!

5 – ‘TRÊS DENTRO, TRÊS FORA’

Dois jogadores contra o goleiro, fazendo tabela com a bola no alto, é a regra. O objetivo é fazer três gols para permanecer na linha. Se chutar três para fora, vai para o gol. Se o goleiro defender um chute e não deixar a bola cair, vai para a linha. O jogo resolvia quando você não tinha jogadores suficientes para montar dois times.

“Com poucos jogadores surgia o ‘três dentro e três fora’”, conta Rodrigo Souza, 34 anos, morador do Jardim Fontalis.

“Sempre vinha algum dono de portão, reclamar, aí trocava de portão. Era uma disputa enorme com discussões engraçadas, ‘peguei no alto’, ‘foi fora da área’, ‘foi para fora’ e por aí vai.”, conta e ri o professor.

6 – AMARELINHA

Giz na mão, desenho no asfalto. De 1 a 10 será céu ou será inferno? A criança joga uma pedrinha em um número e onde cair não pode pular. Cada jogador precisa saltar até chegar no seu destino final. Essa é a amarelinha, brincadeira simples, mas muito disputada e que provavelmente até os seus avós conhecem.

A fisioterapeuta Hellena Procópio Avanzo, 23, Moradora do Parque das Nações, em Santo André, lembra muito bem dessa época. “Dentre as brincadeiras, eu gostava mais de amarelinha.  Jogava com as minhas primas e vizinhas! Corríamos para a rua com algum pedaço de tijolo para logo riscar o chão e começar”, diz Hellena com nostalgia.

7 – DESCER A LADEIRA NA GARRAFA PET

Quem disse que o topo do morro só era usado para observar a paisagem?! Para algumas crianças, ele também servia para diversão. “Empurra! Empurra!”, dizia a garotada. E lá do alto da ladeira escorregaram sentados em cima de uma garrafa pet ou mesmo de um papelão. Adrenalina pura! Consequentemente, alguns joelhos saiam machucados e os chinelos desgastados, mas mesmo assim a graça não acabava.

“Lembro-me como se fosse ontem do coração acelerado, do medo de cair e da alegria de chegar no final da ladeira de joelhos ralados ao lado dos meus amiguinhos”, conta a auxiliar administrativo Fernanda Esmeralda, 21, moradora Brasilândia. (Não recomendado para os mais novos).

Andressa Alves (Cambuci), André Santos (Tremembé), Ariane Costa Gomes (Osasco), Giacomo Vicenzo (Cidade Tiradentes), Kátia Flora (São Bernardo do Campo) e Rubens Rodrigues (Embu-Guaçu)

Coordenação: Karina Oliveira, correspondente da Vila Ayrosa

Comentários

  1. Curioso é que na minha cidade, Santos, duas décadas antes, estas brincadeiras não eram só de periferia. Pensar que elas sobreviveram, com variações geracionais, somente nas periferias é sinal de que as crianças das áreas centrais vivem sem um campo lúdico essencial na sua formação. A rua era uma grande escola porque ensinava política interpessoal e o valor de respeitar a liberdade de cada um. Ver ruas vazias de crianças me assusta.

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