Coletivos criam curso no Grajaú para incentivar atuação no bairro

Wallace Leray

Com a proposta de produzir conhecimento por meio da habilidade dos próprios moradores, grupos do distrito do Grajaú, na zona sul de São Paulo, criaram a UniGraja (Universidade Livre do Grajaú).

O projeto é composto por dez coletivos grajauenses: Associação Esporte Clube – Vila Real, Agência Cresce, Cooperpac, Ecoativa, Graja na Cena, Imargem, Meninos da Billings, Nós por Nós, Salve Selva e Periferia em Movimento. 

O curso começou em agosto e cada grupo atua em diferentes áreas de formação, que vão de aulas sobre reconhecimento territorial, comunicação, hip hop, empreendedorismo, gestão cultural e permacultura (sistema de princípios agrícolas baseado em ecossistemas naturais).

“A questão é como a gente sistematiza esse conhecimento e como se pode contar as histórias a partir daqui”, afirma Thiago Borges, co-fundador do Periferia em Movimento, coletivo de comunicação da região e um dos idealizadores do programa educacional.

O objetivo é que a produção de conhecimento local seja mais explorada pelos moradores, para que a construção das histórias seja contada a partir de suas próprias práticas. “Que não seja um pesquisador ou uma pessoa que não tem ligação com o território classificando as nossas vivências”, ressalta.

Fachada da Associação Esporte Clube Vila Real no Jardim Monte Verde (Wallace Leray/Agência Mural/Folhapress)

A realização tem apoio financeiro da fundação Via Varejo por um ano, mas foi pensada para que se dê continuidade por mais tempo.

Thiago afirma que a realidade da educação na periferia não condiz com esse padrão pré-escola, fundamental, ensino médio até finalmente ingressar em alguma universidade.

“Muitas vezes não se termina nem o ensino médio. Não tem trabalho com boa remuneração. Isso gera uma série de frustrações. Então, foi pensado de uma forma que apresentasse outras formas de atuação”, diz.

EMPREENDEDORISMO

Kerollyn Silva Alves, 22, é uma das estudantes da primeira turma do projeto. Ela conta que fez a inscrição porque se identifica com os temas do curso e por ser na periferia. “Sou comunicativa, gosto da cultura hip hop e também posso conhecer mais pessoas daqui”, fala.

A aluna criou o Brechó da Preta e usa uma conta no Instagram para expor peças de roupas garimpadas por ela mesmo. “Quando era mais nova, minha avó materna sempre ia em brechó e depois revendia. Eu ia com ela ver ela vendendo e daí veio essa paixão”, lembra.

Kerollyn conta que o negócio está parado, mas pretende recomeçar. “Com as aulas de empreendedorismo pretendo voltar e quem sabe dessa vez eu administre melhor. Quero que se torne um negócio rentável”, revela. 

Kerollyn durante a aula de redação na Associação Esporte Clube Vila Real (Wallace Leray/Agência Mural/Folhapress

Também participante do curso, Luciana Aparecida dos Santos, 33, trabalha com alimentos naturais e quer ampliar a atuação no coletivo Que Cabe no Seu Prato. “Tenho aproveitado mais do território, enxergo aqui na UniGraja uma possibilidade do lado de cá da ponte em fazer uma história”, conta.

Antes do projeto, ela trabalhou como auxiliar administrativa e também foi analista de corretora de seguros.  “Desejo devolver na minha quebrada uma atitude transformadora. Um dos diplomas que almejo é de serviço social pra fazer uma intervenção no processo social que vejo aqui”, afirma.

O curso gratuito conta com 400 horas de aulas entre agosto e novembro espalhadas pelo território do Grajaú. Os alunos não são obrigados a continuar no curso até o fim e outros podem entrar ao decorrer. O número médio de pessoas por atividade gira em torno de 15 a 30 pessoas e a expectativa é de atingir 400 pessoas.

“A gente espera dos formandos que amplie o olhar deles”, comenta Thiago. “Não necessariamente a pessoa precisa trabalhar na quebrada, mas que crie um repertório pra que essa pessoa possa militar, buscar transformação local e a garantia de direitos”, diz o jornalista.

Wallace Leray é correspondente do Grajaú
wallaceleray@agenciamural.org.br

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