Jovem de Perus cria marca de roupas para fortalecer identidade negra

Jéssica Moreira

Símbolos africanos, cores e acessórios que trazem nas formas e texturas a história da população negra no Brasil. É desse modo que nasceu, no domingo (18), o Espaço Afro Perifa, no bairro de Perus, região noroeste de São Paulo.

A ideia partiu do estilista Willian André, 23, de fortalecer a estética e identidade preta de crianças e adolescentes na região.

André tem trabalhado com o tema desde 2016, quando criou o Projeto Afronte Empodere-se, com eventos que mesclam moda, rap, grafite e demais expressões culturais pretas.

“A ideia é trazer a questão da moda e da estética negra como auto-estima, para o empoderamento dos nossos na periferia e da favela”, conta.

Grupo já atua há um ano com vendas online e lançou espaço físico (Ana Carla Olive/Divulgação)

A marca foi lançada em novembro de 2017, com uma loja virtual que funcionava por meio do Instagram. “De maio para setembro, muitas pessoas quiseram adquirir as roupas, foi lindo de ver pretos e pretas usando a marca”.

Moradora de Perus e estudante de psicologia, Caroline Oliveira Santos, 20, está desde 2016 no Afronte Empodere-se. Ela afirma que uma marca de roupas que trata sobre ser preto na periferia fortalece a questão da representatividade.

“Usar peças que trazem nossos traços estampados é ocupar mais um lugar que estava vazio na sociedade, porque andando em lojas de shopping, por exemplo, ao ver uma pessoa estampada na roupa, ela é branca”, explica. 

“A gente cresce se olhando no espelho e procurando o europeu padrão. Ao nos olhar no espelho, procurando esse tal do europeu, e não encontrar os traços que são os ditos bonitos, como gostar de nós?”, completa.

Ela afirma que essa percepção traz um sentimento de inferioridade, que só pode ser vencido com a criação de outros tipos de espaços. “Saber que somos lindos do nosso jeito e assumir uma postura que mostra que não estamos pra brincadeira mesmo com todas as dificuldades que enfrentamos.  Não ficamos só na moda, fomos além, é militância por nós em qualquer sentido”, conclui Carolina.

Willian André, criador do AfroPerifa (Divulgação)

AFROEMPREENDEDORISMO

Willian tem promovido desfiles em espaços culturais pelo bairro, com parcerias com a Casa do Hip Hop Perus, a Comunidade Cultural Quilombaque, a Biblioteca Padre José de Anchieta e feiras de empreendedorismo em outros locais da capital de São Paulo.

Ele também realiza parceria com grafiteiros moradores da região. Em janeiro, ao lado do grafiteiro Consp, a marca lançou o editorial Inverno de Flores, um conjunto de cinco estampas que contava a trajetória do negro.

Para custear o aluguel da loja, Willian firmou uma parceria com uma de suas tias. Nos fundos funciona um salão de beleza e na frente sua loja.

“Algo fundamental para eu entrar nesse mundo foi saber que eu sou um afroempreendedor. A palavra afro muda completamente a questão do conceito do empreendedorismo, dividindo-o em dois”, afirma.

Ele parte da ideia da importância em empreender com a própria estética e identidade, além de retomar as raízes.  “Trazendo os pretos para estar nesse mundo dos negócios, fazer com que eles consumam de “nós para nós”, fazer com que eles atuem conosco”.

Assista: com grafite e moda, jovens de Perus fortalecem o orgulho de crianças e adolescentes negros

Willian destaca que o desafio começa por ele ser um homem jovem negro e da periferia. “A gente não tem essa cultura do empreendedorismo. Então, se torna mais difícil”.

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva/Instituto Feira Preta, que entrevistou 255 afro empreendedores no Brasil, divulgada nesta semana, mostra que 94% dos empreendedores negros dizem que já sofreram algum tipo de preconceito. Além disso, 80% apontaram como maior desafio conseguir crédito bancário, e 57% disseram se sentir constrangidos ao ir ao banco para solicitar crédito.

Para driblar essas questões, Willian tem participado de cursos sobre negócios.

“Meu maior desafio foi [entender] essa questão de investimento, de fluxo de caixa. Consegui me adaptar melhor. Eu não consigo sobreviver somente da marca ainda. Sou coordenador do CJ (Centro Para a Juventude de Perus), então o salário do CJ me ajuda nessa questão do aluguel e me ajuda no investimento para a marca”.

Jéssica Moreira é correspondente de Perus
jessicamoreira.mural@gmail.com

Responda pesquisa sobre a Agência Mural

Tradição do jongo reforça identidade negra em Perus

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *