Médico boliviano atende na periferia de São Paulo e busca especialização

Gabriel Sousa

Durante a infância, um dos grandes prazeres de Oliver Quispe Flores, 28, era brincar com os instrumentos de trabalho no consultório do padrinho, que era médico. “Gostava de ver as ampolas de remédios, gostava até do cheiro. Ele tinha livros que eu pegava pra ler”, relembra.

Em meio às brincadeiras, ele não imaginava que o futuro lhe reservaria a mesma profissão – muito menos que a exerceria fora da Bolívia.

Desde abril, Oliver trabalha como médico de família na UBS Jardim Eliza Maria, na região da Brasilândia, zona norte de São Paulo.

Ele é um dos imigrantes que escolheram a cidade, que faz 465 anos nesta sexta-feira (25), como nova moradia.

Bolivianos são os estrangeiros que mais vêm para a capital paulista, seguidos pelos chineses. Entre 2001 e 2017, foram 83.497 bolivianos, de acordo com a Polícia Federal.

De acordo com o “Atlas Temático” elaborado pelo Observatório das Migrações, da Unicamp, 783 médicos bolivianos trabalhavam no estado de São Paulo em abril do ano passado.

PERIFERIA DE COCHABAMBA

Oliver classifica a infância em Cochabamba, onde cresceu junto dos pais e dos irmãos mais novos, como “a infância normal da Bolívia”. Dividido entre trabalho e estudo, desde cedo teve de ajudar os pais vendendo salgados nas feiras da cidade. Eles viviam na periferia do município. 

“Trabalhei sério mesmo desde os 10 anos, quando comecei a saber mexer com forno. Ia comprar sozinho no mercado algumas coisas, carregava sacos de vários quilos na cabeça”, conta.

“Para mim era normal, a maioria das crianças da Bolívia têm a mesma infância que a minha, a maioria trabalha”, recorda. De fato: desde 2014, a legislação boliviana prevê exceções para o trabalho de crianças a partir de 10 anos.

Na adolescência, Oliver começou a considerar se aventurar na área médica. A mãe, no entanto, não botava fé de que os anseios do garoto pudessem ser algo além de sonhos. “Ela falava: ‘ah não, filho, estuda algo no seu nível ou algo que dê grana. Algo mais prático'”, relembra.

Oliver morou na periferia da cidade onde nasceu, na Bolívia (Gabriel Sousa/Agência Mural/Folhapress)

A participação na Olimpíada Iberoamericana de Biologia, aos 16 anos, foi fundamental para a formação de Oliver. “O professor disse: ‘Vai ter uma olimpíada de biologia na cidade. Quem quiser ir, vai para conhecer mesmo, porque eu sei que nenhum de vocês vai passar’”, conta.

Contrariando a previsão do professor, Oliver ficou em quinto lugar na fase local, em primeiro na fase nacional e representou a Bolívia na fase internacional, na Cidade do México, em 2007.

Ingressou em 2009 no vestibular da Universidade Maior de San Simón, uma das mais prestigiadas da Bolívia e que atrai muitos brasileiros.

A Digemig (Direção Geral de Migração) da Bolívia aponta que pelo menos 25 mil brasileiros estudavam medicina no país no segundo semestre de 2018, a maioria nas cidades de Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra.

O processo lá é diferente: para entrar na universidade os estudantes fazem um curso preparatório de um ano, uma espécie de cursinho. Ao final, fazem a prova classificatória. Para certas áreas, o processo pode ser concorrido. “Acho que na minha turma começamos em 6 mil para medicina e no final do ano estávamos em cerca de 200”, explica Oliver.

Concluída a formação, em 2015, os planos eram ir para o Canadá ou Espanha, mas faltava recursos. A amiga de faculdade Nadir Ramirez, 31, sugeriu que fossem para a Argentina, onde trabalharam por um ano e meio em Buenos Aires. 

Durante a estadia em Buenos Aires, Nadir sugeriu que viessem para o Brasil. No começo de 2017 já tinha em mãos a aprovação do exame para exercer a profissão aqui, mas a amiga foi reprovada.

Ele adiou a vinda e chegou em outubro do ano passado. “Fiquei em um motel ali na Luz, não conhecia ninguém. Depois procurei um lugar para alugar pelo Facebook, achei uma coisa ali na Penha”, diz.

Com o trabalho na UBS Jardim Eliza Maria, mudou-se para a Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte. 

BOLIVIANOS EM SÃO PAULO

Apesar da presença de compatriotas na cidade, Oliver comenta ter pouco contato com outros imigrantes. “O pessoal boliviano, você deve ter percebido, é meio fechado. Mas acho que é por conta das condições em que muitos trabalham”, explica Oliver. “Tenho só dois ou três conhecidos bolivianos, mas eles estão numa situação social similar à minha”, diz.

De acordo com o Atlas Temático, 31% dos bolivianos com contrato de trabalho no Brasil até 2015 tinham no mínimo formação superior.

Apesar disso, segundo o Censo 2010, o último disponível, 42,6% dos bolivianos na região metropolitana de São Paulo trabalham como operadores de máquina de costura. O setor foi alvo de diversas ações no Ministério Público do Trabalho por conta de exploração análoga à escravidão. 

A meta de Oliver agora é iniciar a pós-graduação em infectologia pelo hospital Emílio Ribas. Para tanto, estuda por conta própria nos tempos livres da rotina de 30 atendimentos diários. “A gente tenta estudar. A maioria dos que estudam medicina no Brasil contam com recursos dos pais, não trabalham”, diz.

O interesse pela especialização surgiu durante a graduação. “Na Bolívia ainda temos muitas doenças infecciosas. Crianças ainda morrem por diarreia, pneumonia, o que não é o caso do Brasil. A maior causa de morte lá é por doenças infecciosas”, explica.

Embora queira voltar ao seu país para aplicar os futuros conhecimentos, ele faz ressalvas pela situação política. O país terá uma nova eleição e há questionamentos sobre a legalidade de uma nova candidatura do atual presidente, Evo Morales

“Gostaria de voltar porque é o meu país, a minha terra. Mas se as condições não favorecerem, eu prefiro ficar aqui ou em outro país, continuar desenvolvendo trabalhos, oferecendo serviços”, diz Oliver.

Gabriel Souza é correspondente do Jardim Elisa Maria
gabrielsousa@agenciamural.org.br

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