Enchentes atingem bairro de São Bernardo do Campo há 30 anos

Jariza Rugiano

A dona de casa Jaciara Maria Lira de Souza, 62, perdeu boa parte dos móveis do apartamento nesta segunda-feira (11). Localizado na rua Botucatu, o prédio fica praticamente ao lado do Ribeirão dos Couros, que transbordou no Jordanópolis, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Vários pontos foram afetados no ABC e na capital.

“Há 30 anos vivo aqui e a primeira enchente que peguei foi em 1991. Perdi tudo”, relembra. “Faz uns oito anos que não enchia desse jeito. Enchia a rua, mas não entrava no prédio. Desta vez, perdi minha cama, roupas, gavetas, brinquedos e estou conferindo o que dá pra recuperar”, relatou.

A situação de medo no bairro durante o verão é recorrente. Quando chove é comum ver os moradores levando carros e motos para pontos mais altos do bairro e correndo para colocar comportas nas casas.

No momento da enchente, Jaciara estava com o neto de três anos. A água começou a escoar no meio da madrugada.  “A prefeitura está nos abandonando. E se a Defesa Civil aparecer, pede pra ver o que perdemos. Não aceitam nossas fotos e vídeos, querem ver o estrago ao vivo. Mas como, se precisamos jogar no lixo? Como virou rotina, acho que a atenção deles acabou”, completa.

Na tarde desta segunda-feira (11), o prefeito Orlando Morando (PSDB) afirmou que os laudos aceitarão registros fotográficos dos moradores.

De acordo com a Defesa Civil do Estado, foi registrado o volume pluviométrico de 177 mm das 18h do domingo às 9h de segunda-feira no município. Esse índice de chuva equivale a todo o mês de março, causando deslizamentos, óbito, prejuízos materiais em residências e comércios.

Móveis acumulados na casa de Jaciara, após a chuva (Jariza Rugiano/Agência Mural/Folhapress)

O problema no Jordanópolis veio em meio ao temporal do começo da semana, mas obras para reduzir o impacto das chuvas não funcionaram.

Por lá passa o Ribeirão dos Couros, que também atinge os bairros Jordanópolis, Paulicéia e Taboão, seguindo pelo limite com a cidade de Diadema, ao cruzar a Avenida Piraporinha, e com São Paulo, chegando ao Ribeirão dos Meninos.

“Domingo (10), umas 21h30, tentei sair do Rudge Ramos para voltar pra casa, mas foi impossível porque a enchente atingiu a Via Anchieta”, descreveu Valéria do Amaral Santos, 32, moradora do Jordanópolis.

A empreendedora Kátia Maria de Lima, 32, abriu uma lanchonete na rua Sérgio Milliet, há quase um ano, e ficou com os equipamentos submersos. “Eu e meu marido, estamos desempregados. Então alugamos esse lugar para manter nossas contas em dia e ajudar em todas as outras necessidades”, explicou.

“Perdemos alguns móveis e muitos alimentos. Desligamos o freezer e estamos orando para que não tenha queimado. Ainda não sei como calcular o prejuízo, mas foi bastante”, concluiu.

Proprietários da Nunes Lanches limpando local após temporal (Jariza Rugiano/Agência Mural/Folhapress)

“Como não teve uma enchente dessa no último ano, a maioria dos moradores achou que não iria acontecer mais, então muitas comportas ficaram sem manutenção. A teimosia de achar que o piscinão está funcionando. Essa é a rotina da nossa vida inteira”, diz a técnica de enfermagem Luana Lira dos Santos, 30, que ajudava a mãe, Jaciara, na limpeza do apartamento.

PREFEITURA

Sobre a situação do bairro, o prefeito Orlando Morando (PSDB) afirmou que uma obra para reduzir os danos no bairro Jordanópolis, por onde também passa o Córrego Pindorama, foi novamente licitada.

“Conseguimos um aditamento de prazo no final do ano de 2018 com a Caixa Econômica Federal e agora está entrando em licitação, para conclui-la. É obra específica da Prefeitura, de R$ 110 milhões”, disse. A retomada das obras do Pindorama está prevista para até 30 dias.

Projeto incompleto, previsto inicialmente para 2016, o Drenar (piscinão do centro de São Bernardo), ficará pronto em  agosto, promete o gestor. A obra tem orçamento de R$ 353 milhões e faz parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

“Mesmo antes da inauguração, os 67% feito teve função. Se não tivéssemos essa parte, a tragédia seria pior no centro de São Bernardo”, alega.

Os lojistas da Rua Jurubatuba [centro], que protestaram após a perda de materiais, informaram que a água passou de 1m20. “Sem o piscinão, é provável que passasse de 2m de altura”, afirmou o tucano.

Frente da casa de um morador na rua Sérgio Milliet (Jariza Rugiano/Agência Mural/Folhapress)

A prefeitura anunciou 14 medidas formalizadas em decreto de calamidade pública, como vale-refeição, entrega de colchões, vale-transporte gratuito por 15 dias e acordo com a Sabesp para uso de 30 dias de água gratuitamente para limpar as casas e o entorno.

Também está previsto o alojamento para aqueles que não têm condições de ficar em suas residências, isenção do IPTU 2019 para residências atingidas; indenização com recursos da Prefeitura pelo Bolsa Cobertura, bolsa Aluguel para famílias que perderam as casas.

“Até sexta-feira, 15 de março, se não chover na mesma intensidade, a funcionalidade da cidade será retomada”, diz.

Jariza Rugiano é correspondente de São Bernardo do Campo (SP)
jarizarugiano@agenciamural.org.br

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