DJ Bia Sankofa toca músicas que dialogam com a realidade das periferias

Sheyla Melo

Em cada mudança na batida, Bia Sankofa movimenta os discos. Ela dança atrás dos equipamentos de discotecagem (a picape). Os ouvidos estão ligados na melodia e os olhos percorrem rápido botões, computador, discos e o público que dança. Ela faz da festa um momento de alegria e de luta.

Moradora da Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, Fabiana Pitanga, 35, ou DJ Bia Sankofa, como ficou mais conhecida, começou a discotecar em 2013 e leva no repertório a ancestralidade africana.

Gosta de trazer o som de Fela Kuti, músico nigeriano difusor do afrobeat, ritmo que une jazz, funk e tambores. Também foca em música afro-brasileira e do rap. Ela é uma das poucas nas picapes no cenário do hip hop de São Paulo.

“Ver a ausência de mulheres no movimento era algo que me incomodava, foi então que em 2011 iniciei o curso para DJs com Erry G”, relembra Bia. “Não é raro no final dos eventos as pessoas virem falar o quanto os sons que ouviram fizeram um diálogo com a memória”.

DJ relata que ainda falta respeito para as mulheres nesses espaços (Sheyla Melo/Agência Mural/Folhapress)

A caminhada começou antes da graduação de Serviço Social. Ela é militante e integrante do grupo cultural e de esquerda Força Ativa e também coordena a Biblioteca Comunitária Solano Trindade. Há seis anos, decidiu partir também para a discotecagem.

“Estou construindo essa trajetória. Geralmente sou chamada em eventos ligados a temática do empoderamento feminino, africano ou lançamentos de livros”, conta Fabiana.

Bia já tocou na Virada Cultural e também na primeira edição do Você me deve, evento que discute a questão racial, onde esteve ao lado de KL Jay, DJ do Racionais MC. Foi também convidada da Virada Feminista do Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso.

Atualmente, é residente do projeto As Guerreiras, que fortalece as mulheres do hip hop e toca nos eventos da biblioteca Solano Trindade.

Ela diz que o trabalho é independente e aponta dificuldades para as mulheres neste cenário, especialmente no próprio caso: ser mãe, preta, moradora da periferia e militante.

“Mas é possível ser DJ. Me organizo para conseguir dar conta, levamos mais tempo para chegar onde os homens estão, e por isso enfrentamos muitas batalhas para chegar”, completa.

“Apresentação de uma DJ feminina tem mais sintonia entre as palavras e o som”, diz Bia (Sheyla Melo/Agência Mural/Folhapress)

Uma das batalhas começou dentro de casa. “No início, minha família criticou muito, diziam que era para jovens e não para uma mãe que precisa trabalhar e sustentar a filha”. O tratamento em casa mudou quando Sankofa perdeu o emprego. Ser DJ foi o que ajudou a pagar as contas.

A resistência nos eventos, por outro lado, esbarra em episódios de machismo, afirma. “Vivenciei situações que os caras têm fome de tocar, não se aguentam de ver uma mulher fazendo o som, pedem para fazer uma participação e não saem mais”, reclama Bia. “Teve um que até colocou a mão na mesa para mexer no grave ao invés de falar comigo que era a DJ residente”.

Uma mudança nesse cenário ainda levará anos. Apesar disso, ela relembra que se descobriu na discotecagem graças ao incentivo de outros DJs. “Tive também muito apoio do movimento de mulheres e dos espaços da luta que me chamam para tocar”, conta.

Para Bia, a arte permite o desenvolvimento e ampliação de repertório cultural. Ela entende que discotecar é como tocar um instrumento. “Ser DJ te faz conhecer música, estudar história, te amplia os conhecimentos, além de demandar tempo, treino e dedicação”.

Sheyla Melo é correspondente de Cidade Tiradentes
sheylamelo@agenciamural.org.br

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