Covid-19 afeta jornalismo local em bairros de SP e na região metropolitana
Paulo Talarico
Além dos efeitos na saúde pública e na economia, a pandemia de Covid-19 pode agravar um cenário que avança há muito tempo: a crise no jornalismo e os chamados “desertos de notícias”.
No últimos anos, o levantamento Atlas da Notícia pesquisou os municípios que não possuem nenhum veículo de comunicação, seja rádio, TV, jornal impresso ou online.
No final do ano passado, a estimativa era de que 62% das cidades brasileiras viviam essa situação, ou seja, 37 milhões de pessoas não tinham canais “tradicionais” para se informar sobre as notícias de sua cidade.
Outros mil municípios, quer dizer, 20% do total de cidades brasileiras, eram considerados ‘quase desertos’, pois tinham no máximo dois veículos e corriam o risco de ficar sem imprensa local.
A situação complicada Brasil afora não é diferente na região metropolitana de São Paulo. Ainda antes da crise, três municípios já eram desertos de notícia aqui: Pirapora do Bom Jesus, Vargem Grande Paulista e São Lourenço da Serra.
Ter um veículo independente é fundamental. A falta de cobertura local atrapalha os questionamentos sobre a situação do poder público nas prefeituras, facilita a divulgação apenas oficial do que políticos querem, aumenta o potencial das fake news e, por fim, dificulta o exercício da democracia.
Tudo isso ganha peso em um ano de eleições municipais, quando prefeitos e vereadores terão colocado à prova o que fizeram ao longo desses quatro anos. Inclusive, as formas com que lidaram contra a pandemia e os serviços de saúde.
ABALO
A crise da Covid-19 tem aumentado esse problema para quem mantinha um modelo de negócios baseado nas propagandas divulgadas nos impressos. Se os grandes veículos já vêm lidando com a falta de anúncios, os jornais com equipes mais enxutas já têm cada vez mais escoado esse tipo de apoio e ameaçada sua sobrevivência.
Pouquíssimos cobram pela cobertura jornalística seja impresso ou online.

“Não há dúvida de que a pandemia preocupa e traz prejuízos econômicos. O impacto real disto só serão medidos após o fim desta pandemia. Por enquanto o jornal segue firme mantendo seu trabalho diário de informação”, comentou um editor-chefe de um veículo do Alto Tietê. “O jornal já tem uma estrutura bem enxuta – com readequações feitas antes da pandemia”.
Um dos desafios para eles foi justamente a mudança do trabalho na redação para o home office. Na Grande São Paulo, outros veículos têm se desdobrado para manter as equipes, mesmo com a redução da circulação ou o cancelamento de edições impressas.
Alguns pediram apoio para o Google, que lançou uma concorrência para dar incentivo a manutenção desses jornais. Porém, já se preocupam em como irão manter a estrutura no próximo mês.
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A falta de apoio agrava um problema antigo. As prefeituras são os principais patrocinadores de alguns portais e jornais. É difícil dimensionar o quanto a imprensa consegue lidar com a pressão política inclusive em grandes cidades como São Bernardo do Campo, Guarulhos e Osasco.
CONCENTRAÇÃO
Além disso há uma concentração. Dos 1.162 veículos de comunicação que a pesquisa identificou na Grande São Paulo, 889 estão na capital. Nem todos fazem a cobertura local.
As periferias de São Paulo, por exemplo, contam com poucos veículos que cobrem essas regiões, embora muitas ações têm surgido como o #coronanasperiferias, campanha que compartilha conteúdos de diversas quebradas do país.
Diversos veículos como a Agência Mural também surgiram ao longo dos últimos anos e buscam cobrir essa lacuna.
Há ainda os jornais de bairro. A Ajorb (Associação de Jornais e Revistas de Bairro de São Paulo) estima que há 42 veículos que cobrem bairros da cidade com circulação frequente. As dificuldades que já existiam antes se agravaram com a perda de anúncios.
“Logo no início tivemos muitos cancelamentos. Sustentamos alguns que eram institucionais e deliverys”, comenta o presidente da Abjor, Wagner Farias. “Muitos também, não estavam preparados para o trabalho home office, a busca por conteúdo, a revisão, a diagramação, foi um desafio para maioria”.
Ele ressalta que boa parte dos custos fixos continuaram, o que levou a redução de tiragem. “Alguns estão mantendo as edições digitais em semanas que não têm publicidade suficiente para impressão e distribuição”.
Desde antes da pandemia, contudo, os veículos também vinham analisando como passar para plataformas online e em campanhas para incentivar o apoio de empresários do bairro.
Enquanto essas lacunas de informações correm o risco de aumentar, a indústria que fabrica mentiras segue cada vez mais forte, atrapalhando inclusive o combate ao coronavírus com publicações que colocam a população em risco.
“Eu descreveria [a imprensa local] como um bunker, aquela última fortaleza na qual a gente se protege numa guerra”, me disse uma jornalista sobre a enxurrada de fakes que seguem chegando, enquanto tentam manter a cobertura. “A gente tem que fincar o pé e trabalhar duro contra a desinformação.”
Paulo Talarico é cofundador e editor-chefe de jornalismo da Agência Mural de Jornalismo das Periferias
paulo@agenciamural.org.br
Colaborou Bruna Nascimento
*O Atlas é realizado pelo Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) em parceira com Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) e 22 escolas de jornalismo.