O novo normal é se acostumar com quase mil mortes por dia e ir para o bar beber?

Anderson Meneses

Todo dia ao acordar eu dou uma espiada no grupo de Whatsapp que temos na Agência Mural com todos os 80 correspondentes espalhados pela região metropolitana de São Paulo. Hoje não foi diferente.

Um vídeo publicado por Everton Pires, jornalista de Itaquera, me tirou do sério. Ele precisou ir até uma ótica no shopping buscar os seus óculos, e a cena é inacreditável.

No próximo sábado completamos um mês que o prefeito Bruno Covas (PSDB)  autorizou a reabertura dos shoppings da cidade de São Paulo. Nesta  segunda-feira (6/7), bares, restaurantes e salões de beleza também voltaram a funcionar depois de quase quatro meses de quarentena por causa da pandemia de covid-19.

Enquanto isso, os números atualizados de novos casos e óbitos não param de crescer no painel do Ministério da Saúde. Hoje já são 1.628.368 infectados em todo o Brasil e mais de 65 mil histórias de vidas perdidas por conta do coronavírus. 

Quando eu quero visualizar, em minha mente, uma quantidade de pessoas tão grande assim, imagino elas dentro de uma sala. Claro que não caberia, então que tal tentar encaixar 65 mil pessoas em um estádio de futebol? Seria o Morumbi quase que lotado. 

Mas a realidade é que esses exatos 65.487 corpos não estão vibrando por um clássico no estádio do São Paulo, mas completamente frios e imóveis em cemitérios de norte a sul do país.

É impossível aceitar que mesmo com todos esses dados, informações e notícias, as pessoas saiam de suas casas para se divertir em meio a uma pandemia. Mas a realidade mora ao lado.

Eu mesmo tenho uma irmã de 25 anos, moradora de Pirituba (zona noroeste), que sai com os amigos todo fim de semana. Durante a pandemia nada mudou. 

Ela ainda vai nas festas nas casas de colegas do bairro, compartilha o narguilê e chega até atravessar para o município de Franco da Rocha para encontros com as amigas. Posso dizer que falhei na minha missão como jornalista dentro da minha própria família? 

Mostramos diariamente pela Agência Mural que os moradores das periferias não tiveram a oportunidade de fazer home office, que o distanciamento social é muitas vezes impossível com famílias numerosas em casas pequenas. Que vivemos diariamente como em “latas de sardinhas” nos transportes públicos.

Para uma diarista, que precisa pegar o busão lotado para continuar trabalhando durante a pandemia ou para motoboy que entrega dezenas de refeições e tem contato direto com muita gente, talvez seja complexo e difícil questionar e até julgar o seu churrasco em casa de fim de semana.

Essas pessoas já estão em situação vulnerável todos os dias do ano. Com ou sem pandemia. Mas não podemos ser irresponsáveis.

Não é possível que a gente possa sair para passear no shopping, ir para os bares beber com os amigos sem se preocupar. Ainda mais colocando a vida de outras pessoas em risco, principalmente dos trabalhadores. Trabalhadores, esses, que são os nossos vizinhos.

Em que momento perdemos a humanidade de olhar para esses números e não entender que por trás deles há vidas, famílias e muitas histórias? A gente já perdeu mais de 10 mil vizinhos só na região metropolitana de São Paulo. 

Se o novo normal for se acostumar a ver nossos vizinhos morrendo e ter que comemorar isso em uma mesa de bar de Pinheiros, eu passo.

Anderson Meneses é codiretor e cofundador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.
anderson@agenciamural.org.br

VEJA TAMBÉM:

Reabertura do comércio prejudicará ainda mais a periferia, diz líder comunitária