Jornaleiro em Guaianases só lê manchetes e afirma: ‘bancas vão acabar’

Lucas Veloso

Em uma das bancas de jornais mais antigas de Guaianases, na zona leste de São Paulo, além das revistas e jornais, há duas cadeiras. Se por um lado, o movimento caiu, por outro, nunca falta gente para conversar com Laércio Portela, 53, jornaleiro há dois anos por ali. 

Portela assumiu o negócio depois que perdeu o emprego na metalúrgica onde trabalhou durante décadas. Ocupou o lugar de Orlando, jornaleiro anterior que faleceu na mesma época em que estava desempregado. 

Hoje, 30 de setembro, é comemorado o dia do jornaleiro, profissão que tem, aproximadamente, 150 anos de existência no Brasil.  

Foi em 1910 que as primeiras bancas foram criadas em São Paulo. Metalizadas ou de madeira, nasceram para cumprir o trabalho que antes era feito por jovens gazeteiros ou em caixotes.

Hoje, existem cerca de 3.500 pontos de venda de jornais e revistas da cidade, mas há estimativas de que até 1500 foram fechadas nos últimos anos com a queda nas vendas. Carregar bilhete de transporte, comprar doces e até fazer jogo do bicho são situações bem comuns nestes espaços pela cidade.

NÃO LEIO

Portela foi escolhido para assumir a banca, por ser um frequentador e conhecido do antigo dono. No entanto, mesmo rodeado de livros e revistas, ele avisa que não gosta de ler. “Vendo jornal aqui e nem leio, você acredita? Só olho as manchetes, mas sempre fui preguiçoso pra ler, desde que estudava, nunca gostei”, comenta. 

De segunda a sexta, ele abre a banca às 8h30 e fica até 18h, quando vai para casa. Sobre o movimento, ele diz que diminuiu desde 2016. Jornal é o que ele menos vende por ali. 

“Pra vender uma revista é um trabalho, jornal vende muito pouco, no começo vendia bem mais”, afirma. “Acho que se o movimento continuar fraco assim, daqui uns anos, a maioria [das bancas] deve fechar. Estou aqui há dois anos e já caiu muito, imagina daqui pra frente”, prevê.

Por enquanto, o movimento segue no bairro e perto dele há duas outras bancas. Mas o diagnóstico de Portela vem pelo público.

“Geralmente, quem compra jornais e revistas são pessoas com mais idade. Até caça-palavra é gente idosa que compra, porque os médicos indicam, entendeu? Só que, com o tempo, as pessoas de idade vão ficando pior, vai parando de ler, falecem”, completa.

Durante a semana, a banca recebe entre 10 e 12 jornais, mas ele chega a vender apenas metade dos exemplares. O fluxo melhora no fim de semana, quando as 20 edições recebidas são compradas. Ele aponta o preço, R$ 5, como um dos fatores que dificultam a compra.

SANTISTA

Atender um jovem por ali é coisa rara. Eles só aparecem para comprar doces ou gibi. Ele poderia recarregar Bilhete Único, como alguns colegas na redondeza, mas prefere não fazer por ‘dar muita dor de cabeça’ e não lucro.

Santista, Portela gosta de assistir partidas de futebol no tempo livre e o esporte é um dos temas que permeiam as conversas com quem frequenta o local.

Sobre o time do coração, acha que falta investimento. “Tá fraco, tá difícil. Muito jogador ruim no time. O Santos estava bem, é esse ano que tá devagar”, palpitou. O clube chegou a frequentar a zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, mas se recuperou nas últimas rodadas.

Morador de Guaianases desde os sete anos, Portela  diz estar satisfeito com a região. “Estou aqui desde moleque, não tenho motivos para sair. Aqui tem coisas boas e ruins, como em todos os bairros. E aqui na banca, eu gosto, é legal ficar”, reafirma.

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases
lucasveloso@agenciamural.org.br

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